Sexta-feira, Julho 01, 2011

Futebol, Ufanismo, Jornalismo. Ou: O dia em que Messi jogou em Belém do Pará


Messi atuando por um time paraense


Qual a maior glória do futebol paraense em mais de cem anos de atuação de seus principais times? A chegada às oitavas de final da copa libertadores da América, alavancada por um campeonato que não existe mais, a copa dos campeões (o que não desmerece a ousadia, mas é exceção, nada além disso). Fora isso, os times paraenses nunca foram campeões da copa do Brasil, nunca ganharam um título nacional na série A, nem sequer chegaram a uma final desses torneios. Times com menos de duas décadas de formação já alcançaram melhores resultados.

Mas isso não é nenhum empecilho para as torcidas apaixonadas por Remo e Paysandu que continuam a acompanhar seus times com o mesmo fervor dos últimos anos e a se digladiar (não é metáfora) para ver quem é o melhor. Bom, aí é torcida, não haveria muito o que explicar.

O que me deixa intrigado é a importância dada pelo jornalismo paraense ao futebol. O tom de seriedade que encaram o esporte (alguns comentaristas parecem debater A crítica da razão pura, com seus paletós, seus semblantes graves, suas mãos espalmadas e juntas, sempre afetando seriedade e profundidade no que dizem), a cobertura aos times regionais, a quantidade de programas esportivos (contando, rapidamente, são quase 10!), o número de experts em futebol, poderia dar a entender que estamos falando de times que sempre figuraram e figuram entre os melhores times do país, quiçá do mundo.

É, do mundo. Quando escrevo essas linhas, a capa de um caderno de esportes de um jornal belenense estampa a foto de um ex-jogador de um clube paraense ao lado de uma foto do melhor jogador do mundo, o argentino Lionel Messi. A manchete é a seguinte: “São tão semelhantes!?” No subtítulo se lê: “O que há de comum entre Paysandu e a Argentina, além da semelhança na camisa? Os hermanos apostam em Messi, o verdadeiro (sic), para fazer sucesso na copa América, que começa hoje. E o Papão sonha que Thiago Potiguar, versão local do melhor jogador do mundo, faça o mesmo sucesso na Série C. Isso mesmo! Thiago Potiguar, o Messi da Curuzu, está de volta! A informação é do presidente do Paysandu, Luiz Omar Pinheiro.” (os negritos, ops!, as palavras enfatizadas são minhas).

Como se vê, o melhor jogador do mundo é comparado a um atleta que atuou no futebol paraense, sim, no futebol paraense, esse mesmo futebol que tantos títulos nacionais e internacionais deu ao torcedor e que, hoje, um dos seus times disputará a série c do campeonato brasileiro e o outro nem série tem para jogar. Esse jornalismo ufanista, como todo ufanismo, parece não se dar conta da situação dos clubes, da ausência de títulos, da falta de representatividade no cenário nacional. Hoje, o futebol paraense parece desaparecer do noticiário nacional, nem sequer o número de público chama mais a atenção das redações de fora do Estado.

É claro que isso se relaciona à necessidade de persuasão do jornalismo em busca de leitores, mas a persuasão quase sempre necessita de bons argumentos para garantir seu efeito. Não é o caso do futebol do Estado. Mas isso nada significa para o jornalismo esportivo da capital. Para ele, Messi pode ser comparado sem nenhum problema a um atleta de um clube regional, já que esse jornalismo acredita, de algum modo, que o esporte paraense detém condições suficientes para isso. Não tem problema, esse jornalismo resolve a situação, “a versão local do melhor jogador do mundo”, estará entre nós.

Não venham me dizer que essa comparação trata-se apenas de uma brincadeira, ou de um uso típico das redações do jornalismo esportivo. Isso faria sentido se o futebol nortista tivesse algum paralelo com o futebol onde joga “o verdadeiro” Messi. Trata-se, na verdade, de uma situação que se prolonga há anos na imprensa regional: o abandono completo de alguns dos pressupostos básicos do jornalismo, especialmente do esportivo, o que em parte pode explicar, de forma contraditória, a paixão pelo futebol. Masoquismo e sadismo, aí, como quase sempre, são inseparáveis.

Por que o jornalismo esportivo de Belém do Pará, além dessa cobertura dos gols da rodada, dos melhores momentos, das contratações, etc. não se dedica a realizar uma das características fundamentais do fazer jornalístico: a investigação, a apuração dos fatos que vão além da aparência, a busca de interpretações objetivas sobre a situação dos clubes? Diga, meu caro torcedor/leitor, quantas matérias ou reportagens Você já viu estampadas nas capas dos jornais, ou nas manchetes dos programas de esporte na TV, que tinham como tema investigar os motivos pelos quais o futebol paraense quase sempre teve uma boa média de público mas que, mesmo assim, seus times permanecem decadentes? Quantas linhas na imprensa paraense Você já leu a respeito dos contratos de patrocínio; dos meandros que cercam a venda de jogadores; das administrações de suas equipes; das decisões tomadas nas reuniões; das condições degradantes dos torcedores nos estádios, que vão além das miudezas, da superficialidade, dos “gols da rodada”?

O jornalismo paraense, prenhe de programas sobre o fantástico futebol do Estado, continua sem ter programas e páginas voltados para a ciência e tecnologia, justamente em uma região na qual esses dois aspectos são fundamentais. Não se trata de proibir esse ou aquele programa, mas isso diz muito da condição regional, e diz muito desse jornalismo. A idéia de que o jornalismo dá o que o público quer, também, aqui, é uma simplificação. Se assim fosse, por que o público não gostaria da explicação sobre os motivos de ser tratado como gado pelos clubes, por clubes decadentes, comandados por coronéis?

Essa forma de encarar o futebol paraense se assemelha muito à maneira de encarar a violência no Estado; através das notícias que não vão além do ocorrido, da imagem, do fait divers, sem uma contextualização que busque aquilo que deveria caber ao jornalismo: a organização da realidade pelos relatos jornalísticos, a aproximação da verdade.

Verdade?! Para determinado jornalismo isso cada vez mais vem sendo um conceito que se pode brincar, colocar imagens que impressionem, pensar que se trata apenas de uma troca de passes com a imaginação. “São tão semelhantes!?” Para esse jornalismo, parece que sim. Para ele, Messi já jogou em Belém do Pará.

Quinta-feira, Novembro 11, 2010

Ausência, Presença.

Prezados,

Este espaço está há tempos sem nova publicação devido aos compromissos pessoais do autor. Em breve, espero muito breve, os textos voltarão. Relembro apenas que, como os textos não seguem o critério de atualidade a todo custo, creio que os textos permanecem para quem quiser lê-los.
Aproveito para divulgar a Revista Repraesentatio http://repraesentatio.wordpress.com/ que reúne parte dos meus textos e vários outros de jovem pesquisadores interessados em compartilhar, em um único espaço, seus trabalhos sobre cultura. Os textos seguem um tom de seriedade, mas com leveza, alguns são acadêmicos, outros são publicações periódicas. É relevante? É. Quem disse? Eu, ora!

Helênicos, sintam-se cumprimentados.

Segunda-feira, Maio 10, 2010

Texto no Digestivo Cultural

Helênicos!

O texto intitulado “Lady Gaga, uma aula do pastiche” foi publicado no site do Digestivo Cultural. Em essência é o mesmo texto publicado neste espaço, mas está ilustrado de modo melhor e traz um link para o vídeo. Aproveitem para conhecer o site. O link para o texto é: http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=2985&titulo=Lady_Gaga,_uma_aula_do_pastiche .

É isso, quando não estou elucubrando sobre problemas metafísicos, estou a escrever sobre questões frugais, quando não estou pensando em categorias, estou categorizando o pensamento.

Sintam-se cumprimentados.

Quinta-feira, Março 18, 2010

Lady Gaga, uma aula do pastiche


“Cara, esse clipe é, tipo, o máximo”, diz a menina da MTV se referindo ao clipe “Telephone”, lançado recentemente, com Lady Gaga e Beyoncé e com a direção de Jonas Åkerlund. O videoclipe é um dos símbolos da contemporaneidade. Usa uma narrativa que nem sempre quer contar uma história coerente, muitas vezes sequências e cortes rapidíssimos e a imagem é predominantemente apenas imagem, sem precisar explicitar o que se mostra, o que surge, e nem lançar algum tipo de lição que precisa ser apreendida.

Na televisão, uma matéria lançava uma pergunta a algumas “personalidades” sobre “os dez motivos para gostar de Lady Gaga”. Todos falavam de inovação, criatividade, estilo, choque. Parte considerável, para não dizer dominante, da cultura contemporânea julga que alguns figurinos extravagantes, entrevistas chocantes e provocação feminista são suficientes para valorizar algo, uma cantora, um produto. A rigor (e com muito rigor), Lady Gaga não revoluciona nada na cultura, muito menos na cultura pop. Mas a cultura pop é o reino das referências, do reconhecível, de uma estética repetitiva que parece inovar. O pop é, e sempre foi, um reaproveitamento de culturas e formas anteriores, mas diferentemente, daquilo que se pode tomar como cultura “séria” (Adorno), esse reaproveitamento não propõe algo crítico, ou que pretenda mudar a estética vigente; diferentemente da avant garde, o pop apresenta o novo sem inovar, coloca novas vestes no mesmo corpo, canta sem ter voz.

Uma das características dessa estética contemporânea é o pastiche, as referências a conteúdos anteriores, uma imitação que copia o que já fora realizado. Essa referência não critica o anterior, não cria estilos autênticos (como certa estética modernista se propunha), e sim reaproveita a forma e o imaginário que já fora formado sobre esses elementos estéticos para ser reconhecível, digerível.

Isso, que Frederic Jameson já definiria como a estética predominantemente pós-moderna, assumiu características que refletem muito o juízo estético contemporâneo. Logo que o vídeo-clipe da cantora foi lançado, começou a surgir uma quantidade gigantesca de elogios nos mais variados meios. Para muitos, “Telephone é o clipe do ano", “uma aula de cultura pop”, “exemplo de imaginação e criatividade”.

O vídeo de “Telephone” é repleto desses elementos “inovadores”. O videoclipe se inicia com Lady Gaga em um tipo de prisão que mais parece um prostíbulo. Após dançar um pouquinho, a cantora sai da prisão (sic) e é apanhada por Beyoncé em uma caminhonete colorida (tudo é muito colorido no vídeo). Travam um diálogo (inútil) e então as duas seguem em direção a uma lanchonete onde envenenam todos os clientes, a começar por um bad boy que parece um gansgsta rap. Nesse trajeto, elas fazem coreografias, trocam de roupa pelo menos seis vezes e, vez por outra, cantam.

Figurinos extravagantes (Lady Gaga chega a usar óculos feitos de cigarros esfumaçantes e um tipo de chapéu feito de telefones), carro em alta velocidade, mulheres assassinas e uma narrativa, que é um pastiche de Quentin Tarantino, seguem dando o tom da “inovação”. A sexualidade, como temática central, fecha o círculo “revolucionário” dessa estética contemporânea.

Pode parecer surpreendente, mas não acredito na visão apocalíptica (U. Eco) de que a cultura tenha tido sempre objetivos edificantes e que necessariamente tenha sido esclarecedora. Essa visão, de certa forma romântica e aristocrata, não representa a enorme quantidade de espetáculo nonsense que já existiu. A questão é que essa cultura contemporânea tem um alcance maior, mais eficiente e mais persuasivo. O jovem da MTV não está em busca de um visão esclarecedora da vida; a vida já lhe deve parecer complexa demais (para alguns, lembrar de tomar banho já é complexo demais). Talvez a virtualidade de uma cultura que lhe pareça sempre nova seja mais interessante. É facilmente assimilável, é propositalmente gratuito, parece realmente interessante e estranhamente inovador.

Lady Gaga quer chocar, mas quase nada mais choca nesse mundo sem privacidade; quer ser diferente, mas quase tudo é pastiche. O pop precisa de uma nova Madonna que não pareça uma ninfeta pomba-lesa (Britney), nem apenas uma cantora de R&B que acompanha rappers negros vestidos de branco. Procura-se uma mistura de fashion kitsch com atitude girl power; procura-se uma mistura de personalidade desafiante com músicas desafiadoras. Mas Lady Gaga não desafia nada, apenas reforça a artificialidade do pop. Travestindo-se de novidade, quer impactar; reaproveitando o que já existe, se apresenta como diferente.

“Telephone” está perfeitamente de acordo com esse espírito. È uma aula do pop, é um ensinamento do pastiche. Julgamos ser um produto excelente porque repleto de referências à cultura pop e que nós, com nosso imaginário repleto dessas formas, reconhecemos imediatamente e, por essa identificação, atribuímos qualidade. Para nós contemporâneos, o original é a repetição, a criatividade é a citação.

Em uma das seqüências do vídeo, Lady Gaga prepara o veneno que matará os clientes da lanchonete. Como um mago, ela faz uma mistura de vários produtos para que o líquido obtenha o efeito desejado. A cultura pop é bem menos complexa. Basta pegar uma loura que dance, se vista como um carro alegórico e pareça ter alguma atitude que a fórmula está pronta.

Bebamos a nossa porção repleta de novidade. “Tipo, é o máximo” que nos resta.

Sexta-feira, Março 12, 2010

O prazer de expor idéias, ou jornalismo e democracia.


Certa vez, no programa manhattan conexion, Lucas Mendes pediu a Paulo Francis que falasse sobre o pintor norte-americano de origem holandesa, o abstracionista Willem De Kooning (ver aqui http://www.youtube.com/watch?v=zZ0iG7iLRno&feature=related, se quiser economizar tempo, vá para 3’:15”). Francis tinha dois minutos. Sem olhar nem um papel, falou sobre a arte do renomado pintor. Francis ensinou. Ao final, Lucas Mendes pegou no braço de Francis e disse: “muito obrigado”. Rememoro esse episódio porque umas das poucas alegrias de um intelectual é ser reconhecido, não apenas pelos seus pares com a benção sempre lisonjeira – e quase sempre falsa - dos acólitos. É uma das poucas alegrias que tenho como alguém que tenta transmitir algum conhecimento. Uma espécie de De Kooning realista.

Essa manifestação sincera e que não antevê nenhum tipo de benefício é coisa rara “em tempos sombrios” - para glosar o título de Hannah Arendt. Rara porque se alguém se arvora a falar sobre algo que o outro discorda - e, com argumentos, mostra outra visão possível -, o discordante tende a usar os antolhos de sua sabedoria e se fecha na sua ensimesmada forma de pensar. Assim é quando se fala de arte (ainda se fala de arte?), assim é quando se fala de jornalismo.

Em uma de minhas recentes explanações, falava sobre a relação entre democracia e jornalismo. Como o tema sempre é tomado pelo viés do “o jornal é a voz do patrão” e, como sempre, tendo a divergir do que se apresenta como lugar comum e é impregnado por ideologia rasteira e pouco crítica, apresentei outras idéias que fogem dessa simplificação tão prejudicial para a compreensão tanto do papel da imprensa, como das garantias da sociedade democrática.

Não disse que os interesses comerciais não possam interferir na linha editorial da imprensa – e em uma região como a amazônica isso é ainda muito presente -, mas disse que outros fatores interferem, como o custo, as ideologias dos jornalistas, o tempo e o consenso social. Expliquei isso e falei como a democracia está diretamente relacionada à idéia de objetividade jornalística (questionável em muitos aspectos), um dos pilares de uma sociedade democrática.

A sociedade democrática é visceralmente influenciada pela relação, necessariamente próxima, mas não reflexiva, no sentido de reflexo (exatamente porque o jornalismo é um discurso, uma construção simbólica sobre a realidade), entre o relato e o fato, o relato e o compromisso se não com a “verdade”, certamente com uma aproximação necessária da verdade. Daí deriva, ou deveria derivar, a credibilidade do relato jornalístico e, por conseguinte, do jornalista. Alguns editores não acreditam mais nisso, preferem acreditar na menina bonita que apresenta o jornal, ou no jornalista que gosta de futebol e demonstra isso com todos os clichês do jornalismo esportivo.

No Brasil, vários fatores interferem nessa ausência de princípios democráticos e da tentativa de cerceamento da atividade jornalística. Em especial, uma ideologia política que quer assumir a consciência pela conscientização. Ideologia que é adepta do pensamento de que seus ideais são os bons ideais e de que, se há crítica por parte da imprensa, é porque a imprensa ou é golpista ou não está comprometida com o social, “é a voz do patrão”.

Para os adeptos desse modo de pensar, a objetividade jornalística só pode ser vista sob os auspícios de uma idéia de mundo tomada como redentora e edificante, mesmo que essa idéia tenha atentado (e continua) contra a democracia, a liberdade de imprensa e os direitos individuais em vários países. Os que não aderem a essa ideologia são “parciais”, insensíveis ou conservadores. Os progressistas falam em democracia, quando querem o controle da informação; falam em “imparcialidade”, quando querem a parcialidade dos “bons” (deles).

Ao acabar minha fala, os que estavam presentes começaram a sair. Eu, de cabeça baixa, com os cotovelos sobre a mesa, as mãos unidas e os olhos fechados senti uma mão em meu ombro. Abro os olhos e me volto para a responsável pelo gesto. Uma Senhorita elegante (com um bom perfume, bem vestida e voz delicada) então diz: “obrigada professor”; eu perguntei: “pelo quê”; ela respondeu: “pela sua aula”.

Sei que, para muitos, isso não é grande coisa e nem eu estou aqui me vangloriando por isso, mas acredito que um dos principais papéis daqueles que expõem idéias é explicitá-las para que o mundo se torne menos opaco e as pessoas menos obtusas – estou pensando, talvez, com um certo iluminismo original. Isso não quer dizer, evidentemente, que o que se diz não possa ser contraditado, a democracia admite a contradição. Isso faz parte de um dos preceitos ideais (idealizados?) do conhecimento; isso faz parte de um dos principais preceitos do jornalismo e de um regime democrático. É preferível a contradição à pena única que se coloca como verdade.

A verdade, a busca de uma maior relação entre conhecimento e realidade se dá, de certa forma, na academia e no jornalismo, de modos semelhantes: buscando a relação entre discurso e realidade; o discurso como intérprete do real, que deve representá-lo buscando tornar o mundo visível de modo verdadeiro e coerente para o indivíduo. Ambos possuem seus métodos. Se um é, digamos, mais detido e rigoroso, o outro deve organizar, com seu rigor, o caos do nosso cotidiano.

Pode ser um ideal, mas não se precisa confundir o ideal com o vazio, como não se deve confundir abstracionismo com ausência de significado. Prefiro um De Kooning que representa as formas sem ser o reflexo da realidade; prefiro um jornalismo que defenda a democracia sem se submeter à obediência de um realismo abstrato.


P.S: Acima, “Woman I”, de De Kooning. A realidade ali não está totalmente ausente, e sim representada através de outras formas. Para o jornalismo, representar o real com objetividade é uma de suas obrigações, apenas assim a democracia pode se tornar um quadro, que pode parecer imperfeito, mas que ajuda a expulsar as formas (sempre sutis) de um realismo (idealismo) totalitário.

Sexta-feira, Março 05, 2010

Um poltergeist com consciência, ou a resposta à mediocridade.

Um leitor envia um comentário que precisa ser, como direi, respondido de modo mais detido. Ele fala de meu trabalho e, como não poderia deixar de ser, tenta lançar uma crítica “ponderada” sobre o texto. Segue, comento em seguida:

Caro professor,
Li seu texto. Muito bom!. Penso que se me deu trabalho ler e compreender, muito mais terá dado a você para escrever. Confesso que gostei. E também que estou de acordo com quase todo ele. Gosto até de suas pequenas diabruras e zangas, afinal, legítimas.
Pois bem, tranquilize-se, professor, pois acredito que cada um deve estudar o que quizer. Todavia, não podemos cair no erro de acha que só o que é escrito com nossas mãos é inefável.
Aliás, a universidade encontra-se permanentemente esmagada por figuras de cientistas emproados, incapazes de uma relação menos autoritária. Logo que uma ideia nova surgisse. Ou não existe ideia nova. Se não há. Então, de onde saíram as ideias que formam o corpo teórico de sua famosa obra? Finalmente, queria dizer que estou cansado. Cansado de ver tanta intolerância. Cansado de enxergar tanto autoritarismo disfarsado de democracia. Chega de tanta gente boa e genial. Curioso você critica os outros (esse tema é meu). Mas, quase, que inconscientemente (ou não) faz o mesmo (crítica literária esse tema é meu). Mais uma vez. Excelente texto!!! Abs.


Comento:

As pessoas quando se referem aos meus textos costumam dizer que eles refletem minha personalidade. Se o texto possui um tom mais contundente e não se furta em realizar críticas e nem de apontar os motivos da crítica, eles acham que estou zangado, bravo e – tal como o arquétipo do gênio - carcomido pela incompreensão do mundo e de que por isso perpetro “diabruras” sobre as pessoas, como uma espécie de poltergeist com consciência.

E aí me pedem calma. Não é demais? O Sr. Anônimo diz que cada um deve estudar o quiser. Lamento Sr., mas nunca impedi ninguém de estudar nada, nem nunca irei fazê-lo, se o sujeito quer estudar as culturas índígenas na sua intersecção com os parangolés de Hélio Oiticica que o faça, o que eu tenho a ver com isso? O problema é exatamente o contrário meu caro, é que as pessoas não estudam, e se arvoram a se pavonear sobre aquilo que não conhecem e isso sim é, infelizmente, inefável e assaz peremptório (nossa, que palavras cultas!).

Dizer que a universidade se encontra esmagada por professores pretensiosos (emproados) e autoritários é desconhecer completamente a realidade da universidade brasileira. Os professores sérios e competentes são tomados como autoritários, os “legais”, são tomados como incríveis. O que esmaga a universidade não é a competência que incomoda os incompetentes, é exatamente o contrário. A universidade (generalizo para melhor compreensão) se preocupa, em muitos casos, muito mais em apoiar determinada ideologia do que ensinar, em aderir ao politicamente correto do que respeitar a constituição, ou a fazer política partidária quando deveria estudar a política. Fui claro? Ou quer que eu vá ao quadro magnético?

Em seguida em seu comentário, o Sr.Anônimo faz um mistura digna de um poetastro. Fala sobre meu trabalho e perpetra um lamento choroso, vazio e mal escrito. Diz, querendo ser irônico, ser minha obra famosa e adepta de idéias novas. Pergunto: O Sr. já leu alguma obra minha, como sabe que minhas idéias são novas? Ora, está aí uma coisa que não persigo, a fama; talvez a glória.

O Sr. Anônimo diz estar “cansado de ver tanta intolerância. Cansado de enxergar tanto autoritarismo disfarsado (sic) de democracia. Chega de tanta gente boa e genial”. Só há um remédio para a democracia, mais democracia, é isso que combate a intolerância, mas se Você confunde democracia com vale-tudo, ou com o desrespeito às leis estabelecidas, aí é o caso de estudar mais um pouquinho; precisamos sempre de “gente boa e genial” que dê um pontapé na vigarice intelectual; quem não gosta disso é vagabundo que vive numa nice, achando que o medicamento que toma para sua depressão é fruto de um insight do hippie da praça.

Com um final virtuoso, diz o Sr. Anônimo: “Curioso você critica os outros (esse tema é meu). Mas, quase, que inconscientemente (ou não) faz o mesmo (crítica literária esse tema é meu)”. Que inconsciente que nada, é consciente mesmo! Mas não julgo que a crítica literária seja um tema meu, pelo contrário, existem críticos melhores do que eu, sei reconhecer isso e não bato o pé ou saco um índio do bolso para tentar impor o contrário. Escrevo neste espaço coisas que julgo relevante, sem me furtar a realizar críticas, mas nunca me tomei como dono da verdade - Platão, há 15 anos, já não me deixava -, cito autores, comento ideologias, sempre pensando em chamar as coisas pelo nome, sem cumprimentar a mediocridade e nem me esconder no anonimato.

Sorry, Anônimo.

Terça-feira, Fevereiro 23, 2010

Wilson Martins e o fim da crítica na contemporaneidade.


Wilson Martins foi o melhor crítico literário brasileiro. Nenhum crítico dominava tão bem seu objeto como ele. Dominar o objeto significa saber em que medida ele deve ser analisado, através de que argumentos e que perspectivas. Sua crítica literária era direta sem ser simplista, profunda sem ser arrastada, contextualizadora sem se render aos historicismos.

Conheci seu trabalho ainda em 1994 quando entrava para a faculdade. Wilson Martins na faculdade? Não! Nem pensar. Na faculdade despreza-se a crítica literária que não se alinhe a uma ideologia, que não se curva para as “questões sociais”. Martins se lixava para isso, fazia o que muitos professores deveriam fazer: publicava. Eu me lixo para esse sociologismo esquizofrênico. Literatice.

Um exemplo: o que dizermos hoje do soneto, do parnasianismo? Ora, que é poesia chata, puramente formal, despreocupada com o social. Foi o que aprendemos nos livros de periodização da literatura. Vejam o que diz Martins a propósito do poeta Geir Campos:

Uma das razões, aliás ridículas, que parecem ter-lhe determinado o ostracismo decretado pelos diretores da opinião é o fato de haver praticado com mão de mestre o soneto de extração clássica. Ora, levados pelos automatismos populares, muitos doutrinadores simplistas lançaram o descrédito sobre essa forma poética, identificando-a, por definição, com o execrado Parnasianismo (confundido, por sua vez, com a poesia de má qualidade). Ora, enquanto técnica poética, o soneto não é inferior, nem superior, a qualquer outra: nas mãos de um poeta autêntico, será boa poesia.

Os “automatismos populares” são exatamente aqueles que acham que poesia, romance, são papo de comadre ou chilique de amante. Poucos, hoje, podem realizar uma crítica como essa. Crítica é julgamento, não é pitaco, isso quem faz é aquele pessoal que coloca Geir Campos no porão e Caetano Veloso no altar. Ah, esse sim é poeta para eles, pensam que os sonetos de Caetano são ecos da lira de Orfeu. “Enquanto técnica poética” é zero. Mas as universidades enchem seus vestibulares (e graduação) com essas coisas. A idéia é tornar o texto mais próximo do aluno, como se poesia ou romance tivessem a obrigação de retratar o real. Não têm. Ficção é representação e não reflexo. Jogue fora seu Florbela Espanca e compre Mário Faustino.

Em uma de suas críticas intitulada “Mitos Literários”, Wilson Martins comenta a mitificação de Oswald de Andrade a partir da década de 1960 pelas chamadas esquerdas artísticas (sic) e o multiculturalismo contemporâneo. Cito sua apreciação objetiva e clara, apenas para atestarmos como uma opinião como esta seria assimilada por “intelectuais sociais”:

O paradoxo está em que a estratégia dos intelectuais latino-americanos em sua grande maioria, ao sustentar a própria singularidade, cria, precisamente, o gueto que pretendem eliminar. É, aliás, o que ocorre com o multiculturalismo, que, reivindicando autonomias minoritárias, encerra-se ainda mais nas respectivas excentricidades.

Já imagino os híbridos com o dedo em riste, uma foto de Nestor Canclini na camisa e um cocar na cabeça gritando: “Quem esse velhote conservador pensa que é? [ira] Ele não tem competência para falar de multiculturalismo! Esse tema é meu! Meu!!! [choro contido]”

Esse tipo de opinião ajuda a explicar porque da ausência de Martins dos grandes jornais nos últimos anos. Ela é apenas um sintoma de uma sociedade na qual a crítica deixou de ser algo que contribua para apreciar a arte, a vida em geral. Não é apenas que as pessoas não se interessem mais por isso, é a repugnância por qualquer tipo de apreciação que não se alinhe com certas ideologias, nossa rica forma de viver. O eu, cada vez mais, não pode ser maculado pela opinião contrária. A literatura, a arte, só vigora se obedecer a cânones da estética politicamente correta. Conhecem Sebastião Salgado?

Experimente criticar um conhecido. Ele se tornará um inimigo a mais e lhe jogará no limbo de seu (dele) recalque. Se isso, na arte, era parte do processo cultural; na vida, é a garantia do ostracismo. Afagam-se os textos dos amigos; dos não alinhados, mesmo sendo excelentes, não merecem nenhuma apreciação verdadeira. Tente ir contra a idéia dominante e redentora e sua reputação será jogada na vala comum. Por isso é muito mais cômodo se alinhar. A expressão é: “ser político”, ou seja: “não critique”. O fim da crítica literária é apenas um sintoma da ausência de um comentário como possibilidade de revisão, ou (re)conhecimento. Ignora-se, desiste-se, abandona-se aquilo que desagrada; na sociedade na qual o agradar e o hedonismo são as leis. Comentar é interromper, é reconduzir, mas não se precisa de ninguém que acredite em uma possibilidade dessas, prefere-se mergulhar no que se reflete.

Não se admite que nossa imagem possa ser comentada, por que você, afinal, sendo escritor ou não, é avesso a interromper sua progressiva forma de apreciar sua própria avaliação (seu eu inseguro). Wilson Martins não refletia os alinhamentos que obrigam a se comportar como autômato, sua crítica era dedicada ao seu objeto e não propaganda travestida de opinião.

Em seu livro sobre o Modernismo, Martins diz sobre “Macunaíma, o herói sem nenhum caráter”, de Mário Andrade, que ele intentava representar exatamente o oposto, o caráter nacional. Eu digo que o fim da crítica na contemporaneidade é algo assim como Macunaíma, que se mostra, mas que não entendemos e levamos como gracejo, inofensivo e picaresco, como só o nosso caráter pode levar.

Em paz, Mestre.