Em cartaz: Um cineasta, uma cidade, uma época*.
Take 1- Plano geral – No centro da cidade, as pessoas circulam absortas em seus sentimentos particulares. Sem se absterem das convenções sociais, cumprimentam-se. As águas da Baía rebentam no mercado de ferro, trazidas pela brisa acalentadora. Próximo dali, o bonde elétrico passa e suas cortinas deixam entrever senhores com suas bengalas e senhoras com seus chapéus. No
boulevard, alguém, distraidamente, abre o jornal e lê. Entre as idas e vindas das notícias de Portugal, as viagens, encontros e telegramas do “eminente Dr. Lauro Sodré”, existe, na maior coluna do jornal, uma nota como as que existiam sobre a partida ou chegada de alguém. Estamos no início do século XX, mais precisamente em 1911:
O sr. J. Llopis, conhecido photographo, acaba de incorporar nesta cidade uma companhia que, sob o título ‘The Pará Films’, se propõe a apanhar fitas cinematographicas especialmente de assumptos typicos, do natural.
A nova companhia que servirá para atestar flagrantemente o nosso progresso, contractou o profissional sr, Raymond de Baños para dirigir o ‘atelier’.
‘The Pará Films’ tem, no correio a caixa 73ª.
O sr. Llopis chegou da Europa no vapor alemão ‘Rio Negro’1.
A cena é ficcional. A nota não. Estão intimamente ligadas. Belém, no início do século, estava ainda sob os efeitos de um dos seus períodos históricos mais representativos. De 1870 a 1910 a região amazônica foi o palco de uma expansão econômica sem precedentes, baseada na economia gomífera. O enorme fluxo de capital gerado pelo comércio da borracha transformou a realidade social e cultural da região, em especial Belém. A cidade torna-se o local de uma elite que implanta novos hábitos e novas relações. Essa transformação atingiu seu ápice durante a administração do Intendente Municipal Antônio Lemos (1897-1910).
As modificações realizadas pelo Intendente atingiram diversos aspectos do espaço urbano. Foram criadas medidas em relação ao saneamento e à saúde pública, como o Código de Posturas do município, a criação de redes de esgotos e a inauguração de um forno crematório. As mudanças se refletiram também na remodelação estética da cidade. Antonio Lemos empreendeu a construção de monumentos, praças, boulevards, arborizou e calçou ruas, instalou a iluminação elétrica e os bondes e inaugurou o mercado de ferro do Ver-o-Peso. A Europa era o modelo; a modernidade a ser seguida.
É nessa realidade de fausto econômico, iniciada em 1870, que o cinema surge em Belém. Não se pode dizer que surge por ela, talvez apenas podemos afirmar que existia um momento propício para tal. Se em 1895 os irmãos Augusto e Louis Lumière apresentaram ao público em Paris o Cinematographo, em 1896 chegava à Belém o Vitascope de Thomas Edison. Nesse início, predominavam as exibições em locais que não se destinavam exclusivamente à projeção de filmes, como os teatros.
2 Take 2- A chegada – Segundo Pedro Veriano, “deve-se ao espanhol Joaquim Llopis os presumíveis primeiros cinemas [locais exclusivos para exibição de filmes] de Belém”. Não por acaso, Llopis era um industrial da borracha e Ramon de Baños viera, em 1911, para supervisionar suas salas e filmar um documentário sobre o processo de fabricação da borracha, principalmente da fábrica de Llopis
3, afinal a nova companhia serviria para “atestar flagrantemente o nosso progresso”. Sobre a chegada de Banõs, Veriano diz:
O técnico viajou para o Brasil em um navio chamado Rio Negro, partindo de Barcelona para Madrid no dia 31 de agosto de 1911, e em seguida para Lisboa e Belém do Pará. Joaquim Llopis bancava o cicerone, mostrando o cenário amazônico com sua fotogenia de fácil alcance para as objetivas pouco versáteis daquela época (na realidade um caixão com diafragma amarrado de f-8 a f-16, sem chances de captar interiores sem iluminação natural)4.Ainda em Barcelona, Ramon e seu irmão Ricardo criaram, em 1906, a Hispano Films, um laboratório para fazer e revelar cópias. Tiveram êxito na empreitada e se associaram a Alberto Marro para produzirem seus primeiros curtas-metragens. São desse período,
Dos guapos frente a frente e
Don Juan de Serrallonga, ambos de 1910
5. Ricardo e Ramon estão entre os principais pioneiros do cinema espanhol que também teve um grande crescimento no início do século
6. Um dos aspectos ressaltados na filmografia dos irmãos Baños era a fotografia, a cargo de Ramon.
Take 3- O ambiente – Em 1911 Belém contava com vários estabelecimentos que exibiam filmes. Dentre esses estavam o “Bar Paraense”, uma espécie de casa de shows; “Cinema Nazareth”, destinado exclusivamente à exibição de filmes; “Bar americano”, que ficava em Batista Campos e “Cinema Rio Branco”.

As fitas mais divulgadas eram da fábrica francesa “Pathé”. A inauguração de um dos cinemas do período fora assim anunciada:
Cinema Alhambra – Começará hoje a funcionar na Praça da República o Cinema Alhambra, Que entre outras fitas d’arte, exhibirá o último Jornal Pathé e a sensacional fita Rival de Richelieu7.Na época, algumas dessas empresas deslocavam suas exibições para o arraial de Nazaré, a fim de conseguirem mais espectadores. Era o caso do “Cinema Ouvidor”, uma filial de um cinema do Rio de Janeiro, que começou a exibir filmes no Teatro da Paz, transferindo-se durante a festa. Em um de seus anúncios convocava a população a ver as imagens que haviam sido filmadas do círio daquele ano.
Os temas históricos figuravam como uma das principais atrações. Não apenas o Cardeal Richelieu fazia sucesso. Napoleão também era um dos personagens preferidos, como deixa claro a nota convidativa do jornal sobre o “Cinema Brillant”, que fazia parte da empresa “Bar Paraense”:
No cinema Brillant as casas succedem-se, à cunha. O episódio da vida de Napoleão commove e arrebata a platéia que não se cança de rever o emocionante film.
Uma visita ali é de justiça.8Take 4- O conflito – A cidade, em 1911, era um caldeirão político. Lemos havia renunciado à intendência e Lauro Sodré (ex-governador do Estado e uma das maiores lideranças) seu opositor, chegara à Belém para instruir seus correligionários. Um dos principais jornais da época, a
Folha do Norte, fazia oposição ao ex-Intendente e apoiava enfaticamente a passagem de Sodré. Era o prenúncio dos acontecimentos que culminariam, em 1912, com o incêndio do jornal A
Província do Pará, do qual Lemos fora proprietário, e o derradeiro exílio do Intendente, no Rio de Janeiro.
Na filmografia de Ramon de Baños na Amazônia consta um filme curta-metragem sobre esses acontecimentos, denominado
Os sucessos de agosto – importante registro que fora negociado pela filha de Llopis com um exibidor do Maranhão. Existem ainda títulos como
Viagem de Lisboa ao Pará,
O Cyrio,
Inauguração da linha fluvial Belém-Mosqueiro,
Dia de finados em Santa Isabel,
A moda em chapéus da Casa Africana (supomos que se refere à Casa Africana, uma das lojas que abasteciam a elite belenense de artigos importados),
Concurso hípico, Batalha das flores, O embarque do eminente Dr. Lauro Sodré9 e outros.
Take 5- A partida – Baños teve que voltar para a Espanha para se recuperar de uma malária contraída em uma filmagem para o Departamento de Indústria e Comércio pelo interior da Amazônia
10. A economia da borracha estava em colapso. Em outubro, Lemos morria no Rio de Janeiro. As águas continuavam a rebentar no mercado de ferro, a brisa não mais acalentava. Estávamos no início do século, mais precisamente em 1913. O personagem da nota do jornal entrava para a história.
*Texto e imagens publicados em: OLIVEIRA. Relivaldo Pinho de (Org). Cinema na Amazônia: textos sobre exibição, produção e filmes. Belém: CNPq, 2004.
1 Folha do Norte, Belém, set. 1911.
2 C.f VERIANO, Pedro. Cinema no tucupi. Belém: SECULT, 1999, p 15.
3 Idem, loc. cit.
4 Idem, loc. cit.
5 PANTIGA, Ivan. Ricard de Baños (1882-1939). Disponível em: http: //www.gijonmusic.com/cine/ricardeba%Flos.html. Acesso em: 05. dez. 2003.
6 Sobre as informações dos primórdios do cinema espanhol ver este endereço eletrônico:http://www.xtec.es/~xripoll/hcine2.htm . Acesso em: 05. Dez. 03.
7 Folha do Norte, Belém, out. 1911.
8 Folha do Norte, Belém, out. 1911.
9 VERIANO, 1999, p. 15-16.
10 Idem, p. 16.
Fontes consultadas:
SARGES, Maria de Nazaré. Belém: Riquezas produzindo a Belle-Époque (1870-1912). Belém: Paka-Tatu, 2000.
ROCQUE , Carlos. Antônio Lemos e sua época: história política do Pará. 2ª ed. Revista e ampliada. Belém:Cejup, 1996.
SANTOS, Roberto. História econômica da Amazônia (1800-1920). São Paulo: T. A Queiroz, 1980.