Relivaldo de Oliveira

“O homem que se gaba de só dizer a verdade é simplesmente um homem sem nenhum respeito por ela. A verdade [...] é algo para ser acalentada, acumulada e desembolsada apenas quando absolutamente necessário. O menor átomo de verdade representa a amarga labuta e agonia de algum homem; para cada pilha dela, há um túmulo de um bravo dono da verdade sobre algumas cinzas solitárias e uma alma fritando no Inferno”. H.L Mencken em "O livro dos insultos".

Minha foto
Nome: Relivaldo de Oliveira
Local: Belém, Pará, Brazil

Formado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Pará (UFPA), com habilitação em Jornalismo. Mestre em Planejamento do Desenvolvimento pelo Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA-UFPA). Doutorando em Ciências Sociais –Antropologia (UFPA). Autor de "Mito e modernidade na Trilogia amazônica, de João de Jesus Paes Loureiro" (UFPA). Organizador de "Cinema na Amazônia: textos sobre exibição, produção e filmes" (CNPq). É Coordenador adjunto e professor do Curso de Comunicação Social da Universidade da Amazônia (UNAMA).

Segunda-feira, Agosto 10, 2009

Tirésias está morto, ou o fim de uma experiência.

À Michelly, que adora ouvir seu avô.


Quem é aquele que anda lentamente e senta em frente de sua casa para ver o tempo passar? É Tirésias? Tirésias não está morto? Quem foi Tirésias? Ele é o velho adivinho cego que confirma as previsões do oráculo sobre o destino de Édipo. O rei de Tebas ignora o ancião, a tragédia se impõe sobre o filho e esposo de Jocasta. Filhos que somos de Édipo, herdamos dele a incredulidade sobre aquilo que nos desagrada. A velhice nos desagrada, a toleramos como toleramos uma tragédia inevitável.

Olhem para as ruas, tentem perceber quantos velhos (antigamente velho era ter mais de 40) exibem seus cabelos encanecidos (aprendi com Machado). A sociedade contemporânea baniu de nossos olhos a idéia de que a velhice simboliza experiência, sabedoria, conhecimento. Pensamos sempre nela como algo aterrador. Ouvir os mais velhos parece algo angustiante, porque precisa-se ir à academia exercitar a idéia de não envelhecer.

A desvalorização dessa experiência já fora identificada por Walter Benjamin em Experiência e pobreza:

“Em nossos livros de leitura havia a parábola de um velho que no momento da morte revela aos seus filhos a existência de um tesouro enterrado em seus vinhedos. Os filhos cavam, mas não descobrem qualquer vestígio do tesouro. Com a chegada do outono, as vinhas produzem mais que qualquer outra na região. Só então compreenderam que o pai lhes havia transmitido uma experiência: a felicidade não está no ouro, mas no trabalho”[1].

O ouro de hoje deixou de ter na experiência (Erfahrung) dos mais velhos um caminho para ser melhor, a felicidade está no imediatismo da televisão, no tamanho do carro, no imprescindível ansiolítico. Cava-se um destino que se esvai, do qual nada se colhe. As vinhas nada produzem para próxima estação, não se quer a próxima estação, adia-se porque se imagina improdutiva, sedentos pela eterna juventude.

Ao invés de representar a maturidade, os velhos representam a decrepitude, ao invés de ser um estágio de uma vida é só, e somente só, o seu fim. A vivência (Erlebnis) transitória obriga uma intensa vivência e viver em um presente perpétuo prescinde do passado, da história, da memória.

O passado é visto como ruína que nada ensina, que não se pode juntar os cacos, que nada servem, inúteis fragmentos de uma vida que passou. Passamos pelas ruínas e não as reconhecemos. Olhamos para os rostos dos mais velhos como rostos arruinados, escutamos suas histórias como algo distante, distante que estamos de uma experiência que para nós não faz sentido.

Tirésias é o portador de uma experiência que narra o destino, o futuro, mesmo que sejam trágicos. Tirésias é cego, mas somos nós que fechamos os olhos para o que ele diz.

Quem é aquele que anda lentamente e senta em frente de sua casa para ver o tempo passar? É Tirésias? Não. Tirésias está morto.

Ps. Acima, Tirésias aconselhando Ulisses. Ulisses escuta, mas Ulisses, ao contrário de nós, é um homem exemplar.


[1] BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Obras escolhidas. 7ed. São Paulo: Brasilense, 1994, p. 114.

Segunda-feira, Junho 22, 2009

Tenho uma comunidade no orkut, ou simulacros e (dis)simulações.


Tenho uma comunidade no orkut. Qualquer vagabundo tem. Hoje, me envia um amigo, ela tem pouco mais de 20 membros e sua descrição é esta: “comunidade dedicada aos admiradores do professor mais bêbado-chato-irônico-sarcástico-rancoroso-detestável-antipático, porém amado por todos: Relivaldo de Oliveira”. Está errado. Não sou bêbado (tento, é verdade, sempre que posso) e muito menos amado por todos (não tento, é verdade, sempre que posso).

Um amigo me diz que vários professores têm comunidades feitas por outrem e de que é uma forma de homenagem. Huumm... sei.. Estou me tornando um pop star. Sou a Britney má da floresta. Isso é bom? Não sei. Temo ficar careca e abandonar minhas criancinhas.

Venho criticando, neste espaço, esse tipo de exposição. Mas não há como controlar o sadismo web, o masoquismo cibernético, o rancor on line do amante desprezado, ou uma declaração de admiradores.

Minha comunidade possui alguns textos e frases atribuídas a mim. Assumo-as. Um dos personagens criticado toda vez que nos encontramos me lança o olhar de raiva. Tadinho. Se fosse me importar com quem me odeia não faria outra coisa. Como Flaubert, acredito que o valor de um homem pode ser medido pelo número de inimigos que possui e pelo o que ele provoca de oposição.

Em uma defesa recente de um trabalho, um professor de filosofia amigo meu tocou nessa questão contemporânea: “Vocês já pensaram por que no orkut as meninas não são deprimidas, são todas amigas e gostam de ler?” É simples, como ele mesmo argumentou, porque no espaço virtual o que prevalece é a imagem, o imaginário, o simulacro (Baudrillard, Jameson).

Na esquizofrenia da vida contemporânea a imagem da menina reflete os adormecidos recalques de sujeitos fragmentados (Freud diria reprimidos). A menina quer ser popular, bonita e inteligente, mesmo tendo a beleza da maquiagem, a popularidade de um ditador e a inteligência de um basset.

Em uma reunião de amigos quando alguém estranho (só os estranhos fazem isso) aponta a câmera digital parece que vai capturar algo que quero que permaneça lá (Benjamin diria aura). Se digo não, ficam bravos. Não ligo, um miguxo a menos. Click!

Ter 20 amigos e dizer que sou amado por todos não reflete minha vida real. Mas quem se importa com a vida real? A pós-modernidade nos legou a vida ideal, mesmo sendo simulacional. Todos querem essa vida. Qualquer vagabundo pode tê-la.


P.s: A imagem acima é do Filme Blade Runner, de Ridley Scott, 1982. No mundo do filme já não se sabe distinguir imagem da cópia, humanos de replicantes. “Admirável mundo novo”.

Terça-feira, Fevereiro 10, 2009

O que pode parecer particular é geral.


Romanos!
Como Vocês devem ter percebido este blog não possui um critério de atualidade. Os textos seguem temáticas que, de alguma forma, devem permanecer por algum tempo. Já disse que, como Mário Faustino, não penso que tudo que escrevemos deve se tornar eterno. A eternidade é para transcendentais. O máximo de transcendência em que acredito aprendi na escola, quando um dia coloquei uma semente no algodão e, no outro, ela não estava mais lá. Sumiu. Irmã Osmarina, minha professora, disse que “ela se metamorfoseou, transcendeu”. Platão deve ter dado de ombros.

Este blog também não tem como tema my life. Não falo de minhas aventuras pelas ruas, nem o que vou ou não vou fazer nos próximos dias. Isso não interessa a ninguém, a não ser a mim mesmo. Não penso que Vocês sejam padres a ouvirem minhas confissões. Aqui, até mesmo o que pode parecer particular, é geral, o que pode parecer uma frase é uma idéia.

Tenham certeza. Sempre o que escrevo é o que penso. Muitos podem fazer isso na web. No fundo, a maioria, nada nos ensina ou nos faz pensar. Bric-à-brac de gente que quer se sentir presente em um mundo no qual isso é cada vez mais difícil. Mas o que temos com isso? Temos essa montanha de futilidades de vidas vazias, que buscam sentidos e para isso nos enchem a paciência, como a moça que escreve que perdeu 20 quilos em dois meses, ou alguém que discorre sobre as divagações etílicas da noite anterior. Algumas podem ser até engraçadas. Prefiro Monty Phyton.

Só escrevo sobre o que sei. Não tolero o que é fake, vazio, vulgar. No mundo de hoje é quase decretar suicídio. Mas meu niilismo não é tolo. Sinceramente, gostaria de acreditar em mais coisas, como as pessoas que dizem: “bom, agora vou comer, ir pra cama, ver tv e dormir”. Nossa! Como isso é telúrico. Não sou infeliz, mas uma certa rotina me enfada, além de ir ao supermercado (para determinadas pessoas isso é um evento). Não vejo plenitude no tomate (“vejam que tomate essencial, iluminado, e esta beterraba hein! Que jogo de cores!”).

É claro que todos temos nossas frivolidades e obrigações cotidianas, mas daí a elas se tornarem públicas e exemplares, é a distância que existe entre o seu desjejum e o café da manhã descrito por Proust em Combray. Sua madeleine, no máximo, é um pão mole perto do talento do escritor francês.

Volto a estes temas para dizer, aos leitores (que são poucos, imagino, dentre outras coisas, exatamente pelo motivos expostos acima) deste blog, que não sei como ele andará agora. Fui convidado para exercer um importante cargo na Universidade onde trabalho. Aceitei. A covardia não é um dos males que me assola. Os covardes, além de um certo desprezo, me provocam risos. São como Carlitos, como disse André Bazin, porque não se enquadram no mundo e vivem correndo da realidade.

Informarei sobre as atualizações deste espaço. Espero continuar a ter o privilégio de ter poucos, mas admiráveis leitores. Mesmo que tenha que escrever um texto tão pessoal quanto este. Quem quiser que continue lendo. Ou ignore e transcenda. Irmã Osmarina ficaria orgulhosa.


P.S: A tela acima chama-se Rising sun. É de Paul Klee, Pintor Suíço que acreditava que “a arte não reproduz o visível, mas torna visível”. Penso da mesma forma em relação`a cultura, à escrita, a este texto.

Terça-feira, Janeiro 13, 2009

Um jornalismo torto.


Por que o jornalismo na Amazônia não vê a Amazônia? Já procurei várias respostas. Pensei na idiotia dos que o fazem, pensei na lógica do mercado, pensei em me culpar como professor (mas não sou tão cristão assim), pensei até em culpar, sei lá, o curupira, aquele moleque que anda com os pés invertidos, confundindo as pessoas.

Esse jornalismo é adepto dessa prática. Anda em direção contrária da realidade. Não falo das variedades (“pingo rouba tia e mata avó”). Falo de desconsiderar completamente as múltiplas faces da região. Seja no âmbito rural ou urbano, para quem conhece minimamente a região, percebe que parece que se fala de outro mundo. Há exceções claro. São tão incipientes que desmoralizam qualquer defesa.

A menina aparece na tv falando sobre uma manifestação religiosa: voz de criança, ritmo Tom e Jerry, texto com um personagem que acompanha o ritual há 15 anos. O garoto fala de esporte: sonora com o atleta, imagens do treino ou jogo, passagem final com três frases (“destacou o jogador”). No supermercado, o aumento de preços, na avenida uma enquête, resposta: “é um absurdo!”. Certo dia, soube que uma repórter fez uma matéria sobre a falta de higiene na feira do Ver-o-Peso em Belém do Pará. Revolta. Dizem que sofreu ameaças.

Covões da Amazônia desconhecem direitos básicos como água potável, a professorinha, o “dotô”. Os burocratas negam, dissimulam. O jornalismo ignora, pressionado pelo caixa dos anúncios estatais e pela ignomínia de mascates da profissão. News? Nothing. A região que precisa unir informação e ciência, não possui um caderno sequer voltado para esses temas. O futebol e o açougue do dia-a-dia dos jornais são mais importantes. Ciência é coisa de intelectual. Curioso, antigamente se achava de alguma forma que jornalista era intelectual. Pergunte a um jovem repórter quem foi Eidorfe Moreira (R: “jogador?”).

A profissão já teve Voltaire, Zola, Capote. Ainda resiste gente como um Ruy Castro ou um Millôr Fernandes e alguns mais que não enchem uma mão. Romantismo? Em parte sim. Mas certo romantismo serve para isso, para não contemplarmos a realidade “a sangue frio”. Conheço amigos que seriam brilhantes nos jornais. Poucos passam dos cinco anos, saem destroçados pela mediocridade e picuinhas das redações. Quando o princípio de realidade se impõe a desilusão é inevitável.

As cidades continuam a receber nordestinos e caboclos que necessitam de uma certa ilusão. Novos núcleos urbanos surgem, novas culturas, formas de relação com o novo ambiente (é o que falam cientistas sociais). Mas o jornalismo continua a enfocar esses espaços como se fossem um mundo a parte, degradados pela realidade, pobres diabos incivilizados. Porque civilizados são os que moram do outro lado, aqueles dos bares que fecham as ruas, que mandam a namorada bater os pés antes de entrar no carro, que falam como se os outros fossem surdos (um amigo foi à Europa e disse ser fácil identificar um paraense no avião, perguntei como, disse: “são aqueles de quem ouvimos todas as conversas durante a viagem”).

A miséria da realidade amazônica em parte pode ser explicada por isso. O jornalismo que nascera como bem público, uma proposta de esclarecimento, na região, se converte em uma atividade invertida. O menino dos pés tortos engana os outros para proteger a floresta. O jornalismo na Amazônia volta as costas para a realidade que deveria representar.

Sexta-feira, Janeiro 02, 2009

Red Clay, 12':12".


"Aconselho qualquer jovem trompetista a não fazer o que eu fiz, porque este estilo pode ser prejudicial à saúde". Recomendou, provavelmente ironicamente, aos futuros músicos, Freddie Hubbard, o trompetista morto no penúltimo dia de 2008. Recomendo exatamente o contrário. Explico. Antes, um breve divagar.

Quando Hubbard estreou, no final da década de 50, o jazz já era um ritmo disseminado nos Estados Unidos, algumas das principais correntes, swing, bebop, cool, já haviam surgido e era a vez de um estilo que fizesse um contraponto ao establishment de Miles Davis, aproveitasse outras influências como o funky e o gospel e reagisse ao surgimento do Rock ‘n’ roll. Daí surgiria o hardbop, personificado no grupo Jazz Messengers, criado pelo baterista Art Blakey. Um estilo que traria em suas composições andamentos diferenciados, um pouco mais rápidos e intensos que o bebop, mas, em muitos casos, mais simples que os acordes de Charlie Parker e valorizava a presença de solistas como o baixista Charles Mingus com o seu “The black saint and the sinner lady”, o indomável pianista Thelonious Monk e principalmente John Coltrane com o cultuado “Giant steps”. Basta ouvirmos esse último, para termos uma noção de como o jazz modal poderia chegar ao status de uma polifonia agradável, assimilável e renovadora.

Hubbard tocou por quatro anos com Blakey e já demonstrava que seu estilo comedido, temático e ao mesmo tempo expansivo e variável, “exuberante” nas palavras de Winton Marsalis, conquistaria vários seguidores. Suas gravações com o pianista Herbie Hancock, em especial em “Empyream Isles”, confirmaram ainda mais a idéia de que surgira mais um músico que faria jus ao panteão que lhe havia precedido.

Na década de 70 o trompetista gravaria seus principais álbuns solo. Em um deles está a música que batiza o mesmo, “Red clay”. É com “Red clay” que podemos entender o estilo a que se refere Hubbard no início deste texto. No disco, há duas versões e elas servem exatamente para compreendermos como o jazz foi, em variados momentos, o único estilo musical capaz de valorizar a música como artefato de valor imanente, contemplativo e não apenas como reconhecimento e compensação.

A primeira versão da música é a de estúdio. Andamento mais lento, tema conduzido perfeitamente com uma introdução forte de metais e bateria (Lenny White), uma exposição temática e um desenvolvimento com uma seção rítmica que segue em conjunto com o “chórus” e solos dos músicos (nada menos que Herbie Hancock, Ron Carter, baixo e Joe Henderson, sax tenor) até à recapitulação.

A segunda versão é ao vivo. Com 18 minutos, sete a mais do que a primeira, foi uma imposição da gravadora e, ironicamente, se tornou um dos melhores exemplos da capacidade do jazz em se diferenciar da repetição musical e de como o tocar ao vivo proporciona a essa música possibilidades inauditas em outros estilos que, tecnicamente frágeis, não têm muito o que fazer diante da platéia. A música ganha em intensidade e virtuosismo, principalmente pela participação de George Benson na guitarra e pelas variações melódicas do próprio Hubbard. Cada músico executa seu improviso, mas ao contrário da primeira versão, várias notas se modificam e em alguns casos a melodia é bastante diferente da versão anterior, em especial no sax de Stanley Turrentine e na participação vigorosa da bateria de Billy Cobham que, aos 12':12", parece explodir o bumbo anunciando o clímax final. E, ao final, com seu trompete, Freddie Hubbard nos diz: “this is my style”.

Já escutei "Red clay" dezenas de vezes. É um clichê, sei, mas sempre identifico algo novo e sempre sinto algo diferente em relação à música. Se você gosta de algo mais reconhecível (ah a metáfora do espelho!), vá escutar algo como Kenny G, o eterno retorno do nada, ou o resto da covarde vulgata musical, essas músicas de 15 anos (frase cunhada por um amigo), idade muito acima da idade mental dos tigres das cidades.

Recomendo aos jovens que sigam o estilo de Hubbard. É original sem ser pedante, é renovador sem ser impenetrável, é assimilável sem ser gratuito. Platão (que temia a arte) dizia que a “poiesis” é a verdadeira recriação do mundo através de formas inexistentes, como o escultor faz com a argila; antes disforme, ele, com seu trabalho, engendra uma nova realidade. A argila (clay) de Freddie Hubbard engendra uma nova forma de relação com os sentidos, com nós mesmos, com a realidade, que precisa ter forma, sentido, harmonia, intervalos, variações, estilo.

Quarta-feira, Dezembro 24, 2008

Lampejo idílico


11 horas da manhã. É véspera do dia do nascimento do salvador, o calor é tolerável e as coisas estão menos parecidas com este que escreve. Diversidade. Um mundo melhor. Na rua, sacolas. Sacolas empunhando pessoas. Um porteiro (caracterizo as pessoas pelo vocabulário, nunca erro) recebe dois pães e um “refri”, pelo que agradece (brigadu) com um sorriso incompleto. Próximo dali, o flanelinha, com um gorro, guia os carros; o vizinho está na sua luta diária com o vidro da janela do seu monza verde 86 e a barraca que vende tudo vende uma barra de cereal para uma linda jovem com uma pasta de estudante (chamaríamos colegial, mas pode parecer antiquado e, hoje, pornográfico).

Presépios não há mais. Mas há a beleza da jovem que olha distraída para a rua sabendo ser observada. Está com um vestido florido com alças finas - as mulheres não usam mais vestido e por isso mesmo a vejo. O cabelo é moreno liso e, preso por um adereço verde claro, cobre parte do rosto; as mãos levemente abertas tocam a bolsa. Tem em torno de 22 anos, sabe andar. Está sozinha. Um rapaz de boné encara. Boné é coisa da tigrada e a tigrada, Vocês sabem, são aqueles que aspiram àquilo que um dia Sartre chamou de “O ser e o nada”. Mas a jovem não liga. Olha o relógio e caminha para sob uma árvore; o salto baixo sugere discrição, os olhos acima do horizonte, irrelevância pelo que vê.

Movimento para ver melhor, inclina-se, olha novamente o relógio. O vestido adere mais ao seu corpo, permitindo vê-la como talvez Velázques tenha visto a Vênus sobre uma cama enquanto o cupido segura o espelho. Em “Vênus olhando-se no espelho”, o menino mostra à deusa o quanto ela é bela. Cabelos castanhos, com formas realistas, ela parece uma mulher comum. Vemos seu rosto através do espelho, mas a imagem não é nítida. Velázques a retira de sua aura mitológica, humanizando-a. Levaria a jovem da calçada de volta ao quadro, mitificando-a.

A rua-espelho retira parte do encantamento da senhorita, mas não é suficiente para impedir aquilo que Baudelaire chamou de “efêmera beldade”. Se pudesse, atravessaria a rua e diria: “olá, bom dia! O tempo se faz presente através dos dias, do fim de mais um ano, mas pelo momento que fiquei lhe observando, tenho certeza que o novo ano será feliz”.

Sexta-feira, Agosto 22, 2008

Em cartaz: Um cineasta, uma cidade, uma época*.




Take 1- Plano geral – No centro da cidade, as pessoas circulam absortas em seus sentimentos particulares. Sem se absterem das convenções sociais, cumprimentam-se. As águas da Baía rebentam no mercado de ferro, trazidas pela brisa acalentadora. Próximo dali, o bonde elétrico passa e suas cortinas deixam entrever senhores com suas bengalas e senhoras com seus chapéus. No boulevard, alguém, distraidamente, abre o jornal e lê. Entre as idas e vindas das notícias de Portugal, as viagens, encontros e telegramas do “eminente Dr. Lauro Sodré”, existe, na maior coluna do jornal, uma nota como as que existiam sobre a partida ou chegada de alguém. Estamos no início do século XX, mais precisamente em 1911:

O sr. J. Llopis, conhecido photographo, acaba de incorporar nesta cidade uma companhia que, sob o título ‘The Pará Films’, se propõe a apanhar fitas cinematographicas especialmente de assumptos typicos, do natural.
A nova companhia que servirá para atestar flagrantemente o nosso progresso, contractou o profissional sr, Raymond de Baños para dirigir o ‘atelier’.
‘The Pará Films’ tem, no correio a caixa 73ª.
O sr. Llopis chegou da Europa no vapor alemão ‘Rio Negro’
1.

A cena é ficcional. A nota não. Estão intimamente ligadas. Belém, no início do século, estava ainda sob os efeitos de um dos seus períodos históricos mais representativos. De 1870 a 1910 a região amazônica foi o palco de uma expansão econômica sem precedentes, baseada na economia gomífera. O enorme fluxo de capital gerado pelo comércio da borracha transformou a realidade social e cultural da região, em especial Belém. A cidade torna-se o local de uma elite que implanta novos hábitos e novas relações. Essa transformação atingiu seu ápice durante a administração do Intendente Municipal Antônio Lemos (1897-1910).
As modificações realizadas pelo Intendente atingiram diversos aspectos do espaço urbano. Foram criadas medidas em relação ao saneamento e à saúde pública, como o Código de Posturas do município, a criação de redes de esgotos e a inauguração de um forno crematório. As mudanças se refletiram também na remodelação estética da cidade. Antonio Lemos empreendeu a construção de monumentos, praças, boulevards, arborizou e calçou ruas, instalou a iluminação elétrica e os bondes e inaugurou o mercado de ferro do Ver-o-Peso. A Europa era o modelo; a modernidade a ser seguida.

É nessa realidade de fausto econômico, iniciada em 1870, que o cinema surge em Belém. Não se pode dizer que surge por ela, talvez apenas podemos afirmar que existia um momento propício para tal. Se em 1895 os irmãos Augusto e Louis Lumière apresentaram ao público em Paris o Cinematographo, em 1896 chegava à Belém o Vitascope de Thomas Edison. Nesse início, predominavam as exibições em locais que não se destinavam exclusivamente à projeção de filmes, como os teatros. 2

Take 2- A chegada – Segundo Pedro Veriano, “deve-se ao espanhol Joaquim Llopis os presumíveis primeiros cinemas [locais exclusivos para exibição de filmes] de Belém”. Não por acaso, Llopis era um industrial da borracha e Ramon de Baños viera, em 1911, para supervisionar suas salas e filmar um documentário sobre o processo de fabricação da borracha, principalmente da fábrica de Llopis3, afinal a nova companhia serviria para “atestar flagrantemente o nosso progresso”. Sobre a chegada de Banõs, Veriano diz:

O técnico viajou para o Brasil em um navio chamado Rio Negro, partindo de Barcelona para Madrid no dia 31 de agosto de 1911, e em seguida para Lisboa e Belém do Pará. Joaquim Llopis bancava o cicerone, mostrando o cenário amazônico com sua fotogenia de fácil alcance para as objetivas pouco versáteis daquela época (na realidade um caixão com diafragma amarrado de f-8 a f-16, sem chances de captar interiores sem iluminação natural)4.

Ainda em Barcelona, Ramon e seu irmão Ricardo criaram, em 1906, a Hispano Films, um laboratório para fazer e revelar cópias. Tiveram êxito na empreitada e se associaram a Alberto Marro para produzirem seus primeiros curtas-metragens. São desse período, Dos guapos frente a frente e Don Juan de Serrallonga, ambos de 19105. Ricardo e Ramon estão entre os principais pioneiros do cinema espanhol que também teve um grande crescimento no início do século6. Um dos aspectos ressaltados na filmografia dos irmãos Baños era a fotografia, a cargo de Ramon.

Take 3- O ambiente – Em 1911 Belém contava com vários estabelecimentos que exibiam filmes. Dentre esses estavam o “Bar Paraense”, uma espécie de casa de shows; “Cinema Nazareth”, destinado exclusivamente à exibição de filmes; “Bar americano”, que ficava em Batista Campos e “Cinema Rio Branco”.

As fitas mais divulgadas eram da fábrica francesa “Pathé”. A inauguração de um dos cinemas do período fora assim anunciada:

Cinema Alhambra – Começará hoje a funcionar na Praça da República o Cinema Alhambra, Que entre outras fitas d’arte, exhibirá o último Jornal Pathé e a sensacional fita Rival de Richelieu7.

Na época, algumas dessas empresas deslocavam suas exibições para o arraial de Nazaré, a fim de conseguirem mais espectadores. Era o caso do “Cinema Ouvidor”, uma filial de um cinema do Rio de Janeiro, que começou a exibir filmes no Teatro da Paz, transferindo-se durante a festa. Em um de seus anúncios convocava a população a ver as imagens que haviam sido filmadas do círio daquele ano.

Os temas históricos figuravam como uma das principais atrações. Não apenas o Cardeal Richelieu fazia sucesso. Napoleão também era um dos personagens preferidos, como deixa claro a nota convidativa do jornal sobre o “Cinema Brillant”, que fazia parte da empresa “Bar Paraense”:

No cinema Brillant as casas succedem-se, à cunha. O episódio da vida de Napoleão commove e arrebata a platéia que não se cança de rever o emocionante film.
Uma visita ali é de justiça.
8

Take 4- O conflito – A cidade, em 1911, era um caldeirão político. Lemos havia renunciado à intendência e Lauro Sodré (ex-governador do Estado e uma das maiores lideranças) seu opositor, chegara à Belém para instruir seus correligionários. Um dos principais jornais da época, a Folha do Norte, fazia oposição ao ex-Intendente e apoiava enfaticamente a passagem de Sodré. Era o prenúncio dos acontecimentos que culminariam, em 1912, com o incêndio do jornal A Província do Pará, do qual Lemos fora proprietário, e o derradeiro exílio do Intendente, no Rio de Janeiro.

Na filmografia de Ramon de Baños na Amazônia consta um filme curta-metragem sobre esses acontecimentos, denominado Os sucessos de agosto – importante registro que fora negociado pela filha de Llopis com um exibidor do Maranhão. Existem ainda títulos como Viagem de Lisboa ao Pará, O Cyrio, Inauguração da linha fluvial Belém-Mosqueiro, Dia de finados em Santa Isabel, A moda em chapéus da Casa Africana (supomos que se refere à Casa Africana, uma das lojas que abasteciam a elite belenense de artigos importados), Concurso hípico, Batalha das flores, O embarque do eminente Dr. Lauro Sodré9 e outros.

Take 5- A partida – Baños teve que voltar para a Espanha para se recuperar de uma malária contraída em uma filmagem para o Departamento de Indústria e Comércio pelo interior da Amazônia10. A economia da borracha estava em colapso. Em outubro, Lemos morria no Rio de Janeiro. As águas continuavam a rebentar no mercado de ferro, a brisa não mais acalentava. Estávamos no início do século, mais precisamente em 1913. O personagem da nota do jornal entrava para a história.

*Texto e imagens publicados em: OLIVEIRA. Relivaldo Pinho de (Org). Cinema na Amazônia: textos sobre exibição, produção e filmes. Belém: CNPq, 2004.


1 Folha do Norte, Belém, set. 1911.
2 C.f VERIANO, Pedro. Cinema no tucupi. Belém: SECULT, 1999, p 15.
3 Idem, loc. cit.
4 Idem, loc. cit.
5 PANTIGA, Ivan. Ricard de Baños (1882-1939). Disponível em: http: //www.gijonmusic.com/cine/ricardeba%Flos.html. Acesso em: 05. dez. 2003.
6 Sobre as informações dos primórdios do cinema espanhol ver este endereço eletrônico:http://www.xtec.es/~xripoll/hcine2.htm . Acesso em: 05. Dez. 03.
7 Folha do Norte, Belém, out. 1911.
8 Folha do Norte, Belém, out. 1911.
9 VERIANO, 1999, p. 15-16.
10 Idem, p. 16.

Fontes consultadas:
SARGES, Maria de Nazaré. Belém: Riquezas produzindo a Belle-Époque (1870-1912). Belém: Paka-Tatu, 2000.
ROCQUE , Carlos. Antônio Lemos e sua época: história política do Pará. 2ª ed. Revista e ampliada. Belém:Cejup, 1996.
SANTOS, Roberto. História econômica da Amazônia (1800-1920). São Paulo: T. A Queiroz, 1980.