Antropologia e Filosofia: experiência e estética na literatura e no cinema da Amazônia

quinta-feira, janeiro 21, 2016

Tarantino acabou



E acabou há muito tempo. O fanatismo de cinéfilos (sic) que se dane! “Os oito odiados” é o ocaso de um cinema repetitivo, sem o frescor de 1993 (“Cães de aluguel”) e 1994 (“Tempos de violência”) – já li isso em algum lugar, não lembro, e, como está certo, repito aqui. Tarantino anunciou parar de filmar em breve. Ninguém (o fanatismo que se dane 2) lembrará dele além desses dois filmes.

Vocês lerão dezenas de comentários sobre as técnicas, as influências, as retomadas temáticas, o aspecto teatral, etc etc etc. Como já disse, eu não faço isso. Na verdade, nem sei fazer esse desfile de pseudo conhecimento cinematográfico. Cinéfilo (exceções, sempre) não entende de cinema. Quem muito tem o que comentar é porque não sabe parar seu desfile de cabrocha “que vê muito filme” e esquece o cinema como “sintoma” do mundo do qual ele faz parte. Rebola, garoto; ziriguidum!

Quando vi “Cães de aluguel” e “Tempos de violência” fiquei tomado por uma sensação de que algo realmente novo estava vicejando na cultura contemporânea. Mas, ao mesmo tempo, sabíamos que ali havia muito do cinema anterior e das várias “colagens” estéticas que a cinematografia proporciona.

Evidentemente, não era apenas isso. Havia também um certo rompimento com uma idéia negativa do pastiche, da bricolagem, da idéia de autor[1]. Não era apenas a “nostalgia de estilos mortos” que se repetiam, mas a possibilidade de, dentro dessas características estéticas fazer surgir uma imagem cinematográfica que delas se aproveitando, lançava algo novo a ser percebido, uma estética, talvez, de acordo com um espírito contemporâneo que se apropria de estilos já existentes, mas que neles não se encerra.

Garoto, aos 18 anos, recém adentrando os portões da faculdade (greve, greve e professor faltando; nada mudou, me dizem), os dois filmes coincidiam com o auge, em algumas faculdades de comunicação, com a idéia de pós-modernidade, da qual aquelas características acima fazem parte. Para essa idéia, Tarantino era um pós-moderno por excelência.

E talvez fosse. Mas, talvez, para nós – e ainda hoje para mim – ele não se encaixava, naquele período, perfeitamente na condição de mero recitador de estilos e referências. Era bem possível pensar que, se ele estava naquela época de acordo com esse espírito contemporâneo, ele teria ido além da mera noção da referência ao passado como cópia.

Mas é no que se tornou agora. Seu último filme não é apenas inconstante, é acima de tudo, a perfeita reprodução, como os anteriores já foram, de uma estética contemporânea que faz referência a outros e a si como fundamento de sua representação. Tarantino sucumbiu ao criacionismo de si mesmo e acabou se auto-implodindo ao som de Ennio Morricone.

Uma das melhores críticas e comentários que vi sobre o diretor e sobre um de seus filmes foram feitos pelo saudoso Daniel Piza: “o curioso a respeito do novo filme de Quentin Tarantino, ‘Bastardos Inglórios’, é que até seus mais ardentes admiradores o levaram a sério de uma forma que ele próprio satiriza” (http://migre.me/sK8xM). Piza estava criticando o tom sempre muito canônico com que fãs do cineasta tratavam seu cinema e demonstrava como a boutade de Tarantino era essencial para a compreensão de sua cinematografia.

É isso. Tarantino deixou, depois dos dois primeiros filmes da década de 90, de ser um Sátiro que poderia, a partir de sua boutade imagética, nos surpreender além da repetição de uma imagem contemporânea que nos imprimia cópias sem graça de imagens anteriores.

Curioso perceber como na exibição de seus filmes, especialmente esse último, os espectadores tendem a rir, gargalhar, mais do que se surpreender, mesmo em suas cenas propositalmente kitsch de violência.

Em muito isso é uma provocação do diretor, mas isso também diz muito da condição do cinema e não apenas das famosas misturas de gêneros do diretor, mas, especialmente, como o espectador participa nesse mundo imagético de um conteúdo esperado, necessariamente identificador de um fazer técnico já assimilado (isso existe em “Tempos de violência” e “Cães de aluguel”, mas percebam lá, como isso tinha o gosto de uma novidade que extrapola a nostalgia das referências, daí nosso riso mais contido nesses filmes, daí nosso “espanto” ao vê-los naquele momento. Datou, porque se tornou standard, e a indústria também, evidentemente, faz parte disso).

O espectador sempre quis, pelo cinema, a evasão necessariamente egóica de um mundo que o ignora, de um caos que parece não lhe dizer respeito, de uma contingência inelutável. Tarantino nos dá tudo isso. E nós espectadores nos deleitamos com sua repetitiva implosão de si mesmo e com nossas repetitivas gargalhadas “terapêuticas”[2] e histriônicas. Isso é um certo tipo de fanatismo. Ah! O fanatismo que se dane.


[1] JAMESON, Fredric. Pós-modernidade e sociedade de consumo, Novos Estudos CEBRAP, São Paulo, n. 12, p. 16-26, jun. 1985. JAMESON, Fredric. O pós-modernismo e a sociedade de consumo. In: KAPLAN, E. Ann(Org.). O mal-estar no pós-modernismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993. CONNOR, Steven. Cultura pós-moderna: introdução às teorias do contemporâneo. 4 ed. São Paulo: Loyola, 2000.

[2] CHAVES, Ernani. Inconsciente ótico e função terapêutica do cinema. In: COUTO, Edvaldo Souza; MILANI, Carla Damião. (Orgs.). Walter Benjamin: formas de percepção estética na modernidade. Salvador: Quarteto, 2008. p. 127-139

sexta-feira, janeiro 15, 2016

Pssica, de Edyr Augusto*


Janalice, Jana, diz: “Deus me abandonou. Só pode ser. Não acredito mais em nada”. Jana, uma das personagens de Pssica, novo livro de Edyr Augusto, é estuprada, raptada, vendida como escrava, vira prostitua, droga-se. O Portuga é um angolano que, em um assalto, tem a mulher esquartejada. Preá, um rato d´água, rouba embarcações com seus sádicos capangas. O prefeito, um patife, faz bacanal regado a drogas.

O cenário é a Amazônia, o interior e fronteiras do Pará. Se em uma famosa canção paraense “esse rio é minha rua”; no livro, o rio é um caminho perigoso, vaza sordidez. No Marajó, sai o búfalo, entra o povo-manada; no lugar do vaqueiro altivo, meninas famintas oferecendo sexo.

Em Caiena, “a paisagem era como em Breves. Ou subúrbios de Belém. Casas pobres. Ruas esburacadas. Umidade e chuva. Mas os carros que passam eram Renault Mégane, Citroën, Peugeot. Ainda vou ter um”. É um mundo pérfido em sua degeneração contínua. Um permanente infortúnio, uma Pssica, paira sobre ele. Uma praga que parece entoada por um destino inescapável.

Edyr Augusto sai de Belém, mas a barbárie da região não sai de suas linhas. Pssica é uma faca que entra no “bucho” de todos. Há outra região que os postais e as notícias não contemplam. Não há mais nada para ser contemplado. “Me Salva”, implora Jana, mas, como muitos nessa barca, ela nem sabe onde está. “O que fizera para merecer isso?”

Nada. Não há justificativas morais redentoras para explicar essa existência vil. Justificativas não servem para essa escrita expressionista e, propositalmente, mundana. Pulsões determinam ações, como as linhas indomáveis que descrevem essas vidas.

“Me salva”. Não. A redenção que se ensaia no livro é também uma encenação. Jana e sua súplica poderiam ser uma alegoria contemporânea da região. “E esta terra tão grande e linda, mas sem lei, sem nada”. Essa terra pode não ser a Amazônia imaginada, mas, nesse livro, já é um paraíso perdido.


*Publicado no Le Monde Diplomatique Brasil, em outubro de 2015.

quarta-feira, janeiro 13, 2016

Belém 400 anos e o “escapismo do presente”

Foto: Relivaldo Pinho. Sol ao fim do túnel. 2013. Projeto Fisionomia Belém

"As representações de uma cidade são sempre representações históricas, fantasmagóricas também, e são representações que são feitas de um determinado presente. Então, talvez o modo como a gente represente a cidade tem muito a ver com a maneira pela qual nós tentamos ou não entender o presente. É por isso que talvez nós precisemos desse mecanismo de escapismo do presente e acabamos reordenando a nossa relação com a cidade a partir de determinados marcos, que ou são marcos que remetem a um passado considerado maravilhoso, um passado de progresso, de pujança, de beleza como é o caso da Belle Époque numa determinada época. Não que essa recorrência a esses momentos do passado sejam necessariamente ruim, eu acho que o que é problemático é sempre o modo como essa recorrência e essa construção é feita. Ela é feita em geral para de algum modo descaracterizar a potência e o valor do presente. Então, o presente é uma droga, o momento em que nós vivemos não tem nada de interessante, é muito ruim. A cidade é feia, é suja e usamos esse tipo de imagem como uma espécie de imagem de modelo daquilo que a cidade foi e que deixou de ser, que nós olhamos com nostalgia, para qual a gente muitas vezes a gente usa essa expressão simpática, mas cujo sentido as pessoas em geral não entendem que é 'a saudade daquilo que eu nunca tive... saudade do que eu nunca vivi', que eu acho que é um sentimento que as pessoas idealizam quando escrevem ou quando dizem, mas que é um sentimento muito mais problemático, porque está atravessado por essas imagens de um passado idealizado". (Prof. Ernani Chaves no doc. Fisionomia Belém). Tentarei comentar a fala do professor.

Capa 1: ilustrada com um casal em uma dança regional; em outro quadro um casal enamorado olhando para o rio; no seguinte, uma bela moça  comendo um peixe com açaí (sem os lábios sujos, coisa típica nesse ato); e, no último quadro, uma famosa vendedora de ervas do Ver-o-Peso posando com seus apetrechos. Título: “Sons, cheiros e paladares da cidade morena da Amazônia”.

Capa 2: uma enorme arte compara dois momentos de uma das ruas do comércio de Belém. De um lado a época que denota história, um história, provavelmente, do início do século XX, época romanticamente relembrada; do outro lado da arte, a mesma rua repleta do comércio contemporâneo. A idéia era ver a transposição do tempo (sic). Título: “Belém 400: rica em história e cultura (sic), nossa capital merece ser amada. E que venham mais 400!”

Essas são as capas dos dois principais jornais de Belém. Para quem abriu as páginas seguintes viu que lá estão os monumentos, a chuva, as mangueiras, a Belle Époque, a história em fractais comentada por “especialistas”, e celebridades que dizem que “amam” a cidade e a carregam no coração. Tvs (algumas que vivem de exibir o “mundo cão” diariamente) não escapam da mesma abordagem, mídias digitais, publicidade idem.

Sei que esse tipo de abordagem não preocupa apenas a mim e nem é, assim, uma novidade temática. Para mim, abordá-la aqui não é tão prazeroso porque trabalhei com esse tema de modo acadêmico, mas nem sempre a academia é suficiente, nem o blog.

Mas, nesse momento pelo qual são mais do que perceptíveis as mudanças (contemporâneas, que tendem a ser mais “presentes”) pelas quais a cidade já vem passando há pelo menos quatro décadas, é impossível virar as costas para essa data e para o que fazem dela (sim, há exceções http://migre.me/sGlqS , e não é porque estou na matéria e o autor é meu amigo; foi a única li).

O “homem comum” dirá: “mas tem que falar disso mesmo, vamos falar de quê, só de desgraça? Isso já tem todo dia!”; o rapazinho, que sempre ouviu a professora dizer que a “mídia é enganosa”, que acha que entende de meios de comunicação, dirá: “o que esperar desses jornais e TVs capitalistas?”; o menino que ouviu falar de análise do discurso dirá que se trata de um modo superficial de falar da cidade, modo diretamente ligado ao signo que os mass media tendem a enunciar.

Quando vi essas abordagens de jornais TVs, etc. comentei com alguns dos meus amigos e alunos: “estamos lutando, provavelmente contra séculos de discursos sedimentados, consolidados”. Não é apenas porque é uma celebração que deve mostrar apenas o carimbó, também não é apenas porque a mídia é capitalista e nem porque sua linguagem a obriga a isso (e há alguma, não toda, razão em tudo isso).

Mas é também, fundamentalmente, porque esse discurso é um discurso criado muito além (para além (sic)) da mídia (e não estou a dizer aqui que ela apenas o ecoa). É um discurso que atravessou a história (e não falo apenas da Belle Époque) e que, não podendo ser debelado por uma lei, sobreviveu ao tempo (não há espaço para falar de tudo isso aqui). Mas não apenas isso. É um tipo de defesa de um eu coletivo que não consegue se deparar com seu princípio de realidade. Ora, se deparar com a realidade significa abdicar de um mundo onírico (não necessariamente prazeroso) no qual o julgamos, permanentemente, como ideação perfeita, um mundo que, na maioria dos casos, nos encobre o objeto ignorado, seja ele a dor, a perda, a decadência.
Somos miseráveis históricos (“um sentimento muito mais problemático, porque está atravessado por essas imagens de um passado idealizado”), presos a ideações de tempos, objetos e lugares que, a todo o momento, são por nós entoados, porque incapazes de encararmos que se há um adjetivo que pode melhor caracterizar os 400 anos dessa cidade é a noção de decadismo (decadismo também de nossa percepção). Negamos-nos a olhar as múltiplas cidades que surgiram e que nos saltam aos olhos; não percebemos porque o deleite dos tempos de júbilo (prazer) e a “dissociação da realidade” (Simmel, 1902) do cotidiano nos encobre, e continuamos a repetir, compulsivamente, as mesmas ideações (os “entendidos” já perceberam a forte conotação freudiana dessa abordagem – não gritem: é superficial!; porque gritarei que isto aqui não é uma tese acadêmica e, dito isto, como vocês sabem, de tudo posso me defender).

Mas aí, como o “homem comum” anterior, o leitor curioso deve estar se perguntando: “Jornais, Tvs e portais já não mostram essa outra Belém, violenta, suja e abandonada?”. A resposta é não. As representações feitas por esses meios se distanciam, completamente, do que estou dizendo. Não se trata apenas de mostrar essa outra Belém de corpos, pobreza e buracos; trata-se também de mostrar como essa cidade danosa/danificada não é assim apenas pelo “descaso dos governantes”, “da incompetência política”, ou da “falta de vontade política”, esses jargões entoados por esses sujeitos de ternos apertados e idéias frouxas.

É preciso compreendê-la no interior das centenas de movimentos históricos dos quais ela é legatária, da multiplicidade imagética que hoje se ergue como ecos de tempos que permanecem visíveis, insepultos e residuais e com outros se misturam, de entender que cada vez que tentamos “homenagear” uma cidade com seus mesmos símbolos cristalizados, esquecemos de perceber que ao lado da imponente igreja permanece, por décadas, séculos, um lugar de pobreza e decrepitude. Uma cidade contemporânea poderia assim ser vista pelos meios de comunicação? Tarefa difícil, como sabemos. Mas que tal começarmos a exercitar a tarefa de abrirmos fendas na história e, quem sabe, sabermos olhar através delas e poder representá-las.

Pensar que a pobreza da cidade se encontra apenas na periferia e esquecer que é lá, na periferia, que situam alguns condomínios de luxo e mansões (não estou opondo riqueza versus pobreza, por favor – falo de modos de apreensão), como sabemos, é de uma limitação perceptiva aterradora. Pensar que exaltamos a cidade ao demonstrar apenas seus ícones é ignorar que se precisa cada vez mais percebê-la nos matizes (econômicos, culturais, sociais) que hoje são incomensuráveis, o que é de uma falta de distanciamento que assola. 

Olhe pela janela de sua casa. Seu olhar pode cruzar com um prédio neoclássico e atrás dele um gigante de dezenas de andares; vire um pouco o rosto, levemente, e o casebre se cruzará com a casa de vidro repleta de arame farpado; se olhar para rua, talvez, o vendedor de frutas do fim da tarde e a caminhonete de luxo estejam disputando o mesmo espaço. “Os marcos” da cidade ainda existem, mas eles não mais residem sozinhos. Ignorar essa cidade, e não apenas seu cotidiano, é ignorar o presente como modo de aprender a retirá-la de seu manto que a encobre e, mimosamente, a eleva, esquecendo-se que é justamente com o presente e a partir de um presente que podemos dar um salto de "imagens dialéticas" (Benjamin) com a história. Belém, nos seus 400 anos, não pode adotar o “escapismo do presente”.




quarta-feira, dezembro 30, 2015

“Chatô” uma breve alegoria para o Brasil


Não escrevo sobre filmes porque, salvo exceções, desprezo a atitude de enciclopedistas que sabem quando Audrey Hepburn andou sem calcinha, mas não sabem, ou não procuram, pensar por que ela é idolatrada pelas meninas, mas não pelas mulheres de verdade, que preferem Marilyn. Isso são visões de mundo, temáticas existenciais com as quais o cinema se relaciona. Há pessoas, pesquisadores (pouquíssimos), que entendem isso; a maioria fica na ausência do apetrecho de Audrey. Homens – não meninos – nem se fala, preferem Hepburn na sala de estar e Monroe no cômodo conseguinte. Já explico esse início.

Apesar de ter escrito artigos e livros sobre cinema, orientar trabalhos premiados e até dirigir um filme (“Fisionomia Belém”- com Yasmin Pires e um grupo de pesquisa - projetofisionomiabelem.blogspot.com -), nunca me interessei em comentar filmes, porque, confesso, o cinema sempre foi para mim aquilo – é contraditório, eu sei – sobre o qual me debrucei pra tentar entender e escrever nas “ margens” do mundo (Benjamin/Seligmann-Silva) e não para desfilar as curiosidades e tecnicismos que fazem alguns se exaltar em pizzarias.

Depois de oito anos, fui ao cinema (e, por favor, releiam os parágrafos anteriores antes de me perguntar “como pode?” – vi e vejo filmes de outras formas). Fui ver “Chatô, o rei do Brasil”, sim, o polêmico filme de Guilherme Fontes. Não vou falar do filme como artefato estético (técnico) apenas, mas do que ele representa em um país e um cinema que soçobra em mistificações, comédias vagabundas e experimentos sustentados pelos nacos do Estado com seríssimos problemas de valor – ai, ai, sim há exceções.

Ao sairmos do cinema ouvi um comentário de um senhor: “mas é muito avacalhado pra um tema tão sério” (foi mais ou menos isso que ele disse). Ora, só visões estúpidas esperam que filmes sejam história; há um longo debate sobre isso, não vou me alongar. “Chatô” é exatamente isso, uma alegoria em tom picaresco sobre um personagem extremamente relevante da história do Brasil (não li o livro; aqui não interessa), que, de outra forma, poderia incorrer nos enfadonhos filmes que se pretendiam ser representativos de momentos históricos brasileiros; a lista é longa e chata.


Era a única forma possível? Talvez não. Mas é uma forma que se separa exatamente daquela condição do cinema brasileiro descrita acima. No filme, está a história do personagem, seus principais momentos, e há a história do país, mas não há aí nenhum didatismo, nenhum teor moral unívoco, nenhum proselitismo ideológico. Duvido que “Chatô” seja mostrado nas maiorias das escolas para “ilustrar” (sic) a história brasileira.

Não dá, não serve, não se pode condenar o “rei do Brasil” para justificar a manipulação da mídia – embora isso seja verdade e esteja no filme, mas esse não é seu mote. Um amigo meu que me acompanhava comentou: “como se poderia mostrar a história de Chatô, se sua personalidade, em grande parte, abarcava consideravelmente suas idiossincrasias que estão no filme?”.

Li em algum lugar que o filme era exagerado. Mas é o exagero seu fundamento, que não cai na piada fácil, no bundalelê e nem na “memeficação” do humor (não precisamos elencar quantos filmes nacionais fazem isso). Entender o papel do exagero, de uma alegoria, de um expressionismo (hiperbólico, nesse caso, propositalmente) na história das representações culturais é compreender também sua força de subversão de temas e de estéticas. “Chatô” faz isso? Nem sempre. Lá estão as mais diversas influências estéticas picotadas (Cinema Novo, Atlândida, etc, etc), por vezes bem desenvolvidas e, em outras, realmente com ares de inovação (a idéia de mostrar um dos mais importantes nomes da história do Brasil em tom de chacota, sem ser pastelão, já é uma inovação). Quantos filmes brasileiros com tamanho investimento fazem isso (não abram comentários sobre filmes, não vou responder – falem sobre o que está escrito aqui)?

Problemas técnicos? Sim, deixo isso para os cinéfilos. Mas se esse filme possui alguma virtude – e não pouca virtude para os dias de hoje – é realmente destoar da “reprodutibilidade técnica” (um conceito problemático e mal compreendido de Benjamin) que se adotou no cinema nacional. Diretores de grandes produtoras reclamam da mesmice, mas não conseguem se desvencilhar; atores aderem constrangidos (alguns), mas o caixa os obriga a fazer o gordo sendo gordo, o boa pinta sendo patrão.

Paulo Francis dizia que toda vez que via um filme nacional dava vontade, pelo conteúdo repetitivo de ver o brasileiro sempre como um pobre coitado, de sair gritando “é um santo, é um santo!” Ao sair do filme de Fontes não podemos gritar isso. “Chatô” não é nem um santo, nem um degenerado, é um personagem complexo, histriônico, um empreendedor, um homem pulsional e sensível. Como representar essa personalidade? Tendo a história como pano de fundo que mais se destaca e explica a realidade por estanques momentos (início, meio e fim), imolando o “rei”, vendo como no Brasil tudo passa pelo poder, por explicações de poder, pelas “relações sociais” (há a participação decisiva de uma mulher – sim, “apenas” uma mulher - no poder que ele, “Chatô”, nunca doma e por isso sofre e também se arruina)?

Não. Se o filme de Fontes não é uma revolução do cinema nacional, também não é algo que possa ser tratado pelos pitorescos, pelos cinéfilos de achismos. Ele levanta possibilidades de como expor um tema relevante sem ser enfadonho e é, propositalmente, uma comédia feita da alegoria picaresca, que pode nos lançar imagens que ameaçam nossos “casulos” históricos, teóricos, cinematográficos, morais.


Chatô não é um Midas de facão na mão, nem um jagunço salvador. O julgamento onírico metafórico, picaresco e midiático que se realiza no filme tenta representar isso. O filme que começa com a posse da rainha Elizabeth, fazendo alusão ao rei tupi decrépito, termina com uma cena que mais parece uma metáfora das pulsões que, no filme, são também decisivas e, evidentemente, oníricas. Pulsões quase sempre estão no limiar do grotesco/exagero (recalque) e da “liberdade” (sublimação).

Talvez precisemos desses “exageros” esteticamente construídos que cindam a mesmice da imagem reproduzida no Brasil. Se alguém quiser ficar com a picardia por ela mesma, não entenderá a possibilidade de interpretar esse filme. É preciso ir além da vestes de Audrey; é preciso agarrar Marilyn em um canto, mas, fundamentalmente, é preciso saber o que isso significa para as “margens” – estéticas e éticas, não? - do mundo/Brasil.

Em uma das cenas, Chatô está moribundo na cama enquanto seus antigos amigos e empregados dele tripudiam. Imóvel, a câmera mimetiza seu olhar vendo aquela vingativa catarse; ele nada mais pode dizer, mas sabe quem foi, quem são aqueles senhores e do mundo do que fizera parte. Em outra cena onírica (do julgamento) ele se levanta da cadeira de rodas e pergunta, se ele for condenado: “quem vai continuar o show?”. Sim, o show continou e o Brasil ainda continua cheio de Midas, jagunços e reis. Vejamos as vestes de Audrey, mas agarremos Marilyn no cômodo seguinte.


quarta-feira, junho 03, 2015

Editora da UFPA publica tese vencedora do Prêmio Professor Benedito Nunes

 
 A Editora da Universidade Federal do Pará (ed.ufpa) lança, na próxima sexta-feira, 5, com sessão de autógrafos, às 18h, o livro Antropologia e Filosofia: Experiência e estética na literatura e no cinema da Amazônia, de Relivaldo Pinho. O evento será realizado no estande da ed.ufpa, na XIX Feira Pan-Amazônica do Livro.
A obra é resultado da tese de doutorado do autor, defendida no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFPA, sob a orientação do professor Ernani Chaves. A pesquisa foi vencedora da edição 2012 do Prêmio Professor Bendito Nunes da UFPA, coordenado pela Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação (Propesp) e atribuído à melhor tese de doutorado defendida no âmbito dos Institutos de Filosofia e Ciências Humanas, de Ciências da Arte e de Letras e Comunicação da UFPA. Podem concorrer ao prêmio trabalhos de pesquisadores (docentes e técnicos) da UFPA vinculados a esses institutos, ou teses de autoria de pesquisadores externos, mas defendidas em programas de pós-graduação desses mesmos institutos da Universidade Federal do Pará.
O trabalho de Relivaldo Pinho analisa os livros Belém do Grão Pará, de Dalcídio Jurandir; Altar em chamas, de João de Jesus Paes Loureiro; Os Éguas, de Edyr Augusto; e os filmes Um dia qualquer, de Líbero Luxardo; Ver-o-Peso, de Januário Guedes, Peter Roland e Sônia Freitas; eDias, de Fernando Segtowick.
Os livros e filmes têm em comum a cidade de Belém do Pará e representam épocas diferentes e importantes da capital. O livro de Dalcídio Jurandir tem o declínio da cidade com o fim da era da borracha; o de Edyr Augusto é um romance policial no fim século XX. Já o filme de Luxardo é da década de 1960, e o de Segtowick, que mostra a vida de três personagens em uma Belém já repleta de grandes edifícios, é do início do século XXI. São esses períodos e épocas que levam o autor a afirmar, em sua introdução, que “a literatura e o cinema aqui estudados são objetos estéticos que são pensados na sua relação com o sentimento, o espírito, que os emula”.
Real originalidade - “Perscrutar esse espírito em um conjunto de obras que o encerrasse, foi a tarefa mais longa, porque, imagino, contrapunha o espírito mais comum. O significado fundamental desta pesquisa foi o de buscar uma real originalidade na abordagem sobre a Amazônia, neste caso, mais especificamente, sobre Belém do Pará”, diz, nas notas iniciais do livro, Relivaldo Pinho. Para o autor, o estudo não poderia “ignorar a urbanidade - sua representação - que se ergueu e se ergue e a decadência que a acompanhou e a acompanha, naquilo que se imaginou/imagina ser o paraíso perdido, a Paris nos trópicos, ou se pensa ser exemplo de ‘moderno/contemporâneo’”.
Unindo Antropologia e Filosofia, a partir, principalmente, das teorias do antropólogo norte-americano Clifford Geertz e do filósofo alemão Walter Benjamin, o escritor buscou uma nova possibilidade de se observar a cidade por meio da experiência social nela presente e da estética que a representa. A pesquisa “se volta para as obras com a intenção de compreender seus significados e ler suas existências. Existências que podem se situar primordialmente na cidade, mas que estão atreladas à região”, afirma, no trabalho, o autor.
No prefácio do livro, o professor Ernani Chaves diz que “o que aguarda o leitor nas páginas que se seguem é, antes de mais nada, o resultado de um trabalho de pesquisa, em vários aspectos, extraordinário. O resultado de uma longa convivência do autor com o seu tema”. Para ele, Relivaldo Pinho “se situa na tradição daqueles que tomam a cidade como objeto, mas também como companheira e amante, tentando, de algum modo, desnudá-la. O estranhamento do familiar. O que corresponde, em Walter Benjamin, ao duplo movimento de imersão no objeto para que, depois, possamos tomar em relação a ele a ‘distância certa’”.
Sobre o autor - Relivaldo Pinho é graduado em Comunicação Social, mestre em Planejamento do Desenvolvimento e doutor em Ciências Sociais (Antropologia) pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Foi coordenador adjunto do curso de Comunicação Social e coordenador da Especialização em Jornalismo, Cidadania e Políticas Públicas, da Universidade da Amazônia (Unama). É professor do curso de Comunicação Social e do Mestrado em Comunicação, Linguagens e Cultura da Unama. Coordena o projeto de pesquisa Comunicação, Antropologia e Filosofia: Estética e Experiência na Comunicação Visual, Audiovisual e Literária Urbana da Contemporaneidade de Belém do Pará. É autor dos livros Mito e Modernidade na Trilogia Amazônica, de João de Jesus Paes Loureiro (Naea/UFPA, 2003), vencedor do Prêmio Naea de Melhor Tese/Dissertação de 2001-2002; Amazônia, Cidade e Cinema em Um Dia Qualquer eVer-o-Peso: Ensaio (IAP, 2012), contemplado com o Prêmio Vicente Salles de Melhor Ensaio do Instituto de Artes do Pará (IAP), e organizador do livro Cinema na Amazônia: Textos sobre Exibição, Produção e Filmes (CNPq, 2004).
Serviço
Lançamento e sessão de autógrafos do livro Antropologia e Filosofia: Experiência e Estética na Literatura e no Cinema da Amazônia, de Relivaldo Pinho.
Editora: ed.ufpa
Data: 5 de junho de 2015.
Horário: 18h
Local: Estande da UFPA, na Feira Pan-Amazônica do Livro
Entrada franca
Texto e arte: Divulgação ed.ufpa

quinta-feira, fevereiro 28, 2013

Selva Concreta
Edyr Augusto, Ed. Boitempo Editorial


“Tei, tei, tei.” O estrondo ecoa na Amazônia. Não, não é nenhum som de uma tribo da floresta; é o som dos tiros que matam um dos personagens de Selva concreta, novo livro de Edyr Proença.

Gil, o condutor da narrativa, é um jovem delegado que trabalha em Belém do Pará, em uma cidade completamente diferente da imagem idílica que algumas canções entoam sobre o lugar. Não se engane, meu caro leitor. Você não vai encontrar na “selva” de Proença o Círio de Nazaré, o Ver-o-Peso, as mangueiras, o açaí. A cidade sobre a qual ele escreve é feita de assassinos, traficantes e corruptos. Tem-se Mariella, a menina do interior que, vendida pela família a um traficante, vira DJ de festa de tecnomelody na capital e vive a vã esperança de reaver o filho. Tem-se o vingador, um serial killer que, através da internet, seduz jovens meninas e as mata em um ritual de magia negra. E Urubu, o jornalista que está sempre pronto a devorar e exibir para o público sua carniça do dia.

Com uma escrita de parágrafos curtos, entremeados por ações simultâneas e linguagem coloquial, vamos passando pela Belém que, de certa forma, é aquela que surgiu nos últimos vinte anos. As histórias são típicas, mas de uma tipicidade do cotidiano contemporâneo, dos fatos que enchem os jornais, da decrepitude de uma cidade que já se quis a Paris dos trópicos. É lamentável? É. Mas a literatura de Proença não lamenta a cidade, ela a representa. Repleta de gente e do mal. É claro que Belém não é apenas isso, mas esse isso não é mera invenção literária.

Selva concreta pode não ser literatura densa, pode não perscrutar as dimensões profundas da existência, como na obra de Dalcídio Jurandir sobre Belém. Mas talvez seja uma literatura possível para uma realidade que já não se preocupa tanto em desvelar algo, já que tudo está à mostra, tudo está diante de nossos olhos, ao mesmo tempo atônitos e acostumados, como olhos diante do barulho de tiros. “Tei, tei, tei.”


Relivaldo Pinho
Professor da Universidade da Amazônia

Publicado originalmente no Le monde diplomatique Brasil. http://www.diplomatique.org.br/resenhas.php?edicao=67

sexta-feira, junho 22, 2012

Livro "Amazônia, cidade e cinema em 'Um dia qualquer' e 'Ver-o-Peso'"


O livro “Amazônia, cidade e cinema em ‘Um dia qualquer’ e ‘Ver-o-Peso’”, escrito por mim, será lançado na sexta, 22, no Instituto de Artes do Pará (IAP). A obra foi vencedora do Prêmio IAP de Artes Literárias de 2011, Prêmio Vicente Salles, na categoria Ensaio.
O livro estuda dois filmes paraenses, “Um dia qualquer” (1962), de Líbero Luxardo e “Ver-o-Peso” (1984), de Januário Guedes, Sônia Freitas e Peter Roland, sob a ótica da representação das épocas em que os filmes foram produzidos. Para isso, utilizei uma metodologia, com base no filósofo Walter Benjamin e no antropólogo Clifford Geertz, que buscasse interpretar os filmes em conjunto com seus momentos históricos, tanto do ponto de vista social e histórico quanto estético.
Imagens de Belém – Os filmes analisados no livro têm em comum a cidade de Belém como cenário e como personagem principal. O filme de Luxardo, o primeiro longa-metragem do Pará, narra a história de Carlos (Hélio Castro), que após a perda da mulher amada Maria (Lenira Guimarães), rememora o amor e vaga desconsolado pela cidade. O filme de Januário, Freitas e Roland conta, em uma mistura de narrativa documental e poética, um dia no principal cartão postal de Belém, o Ver-o-Peso, através de um mendigo (Aberto Bastos) que vivencia várias situações cotidianas do lugar. Esses filmes são significativos porque representam uma cidade que, em muitos aspectos, não mais existe e, principalmente, por revelarem uma cidade que pode nos dizer muito de nossa realidade nos dias de hoje.
Os filmes são analisados como formas de representações diferentes de Belém. “Um dia qualquer” é pensado a partir de uma leitura existencial sobre a modernidade, com a estética cinematográfica do período, muito próxima aos cineclubes belenenses, e com a crítica que tinha nessa estética seus modos de julgamento, só assim podemos entender toda a crítica recebida ao filme e isso, hoje, precisa ser considerado. “Ver-o-Peso”, uma geração depois, é um vetor da tentativa de revalorização da cultura amazônica, paraense, de Belém, que buscava se fazer presente, pressionada pela ameaça de uma modernização avassaladora que se instaurava na região.
Modernidade - No prefácio do livro, o professor de filosofia da UFPA, Ernani Chaves, diz que os dois filmes analisados no ensaio trazem uma reflexão sobre a vida moderna na Amazônia. “Neste ensaio a fantasmagoria da ‘Paris nos trópicos’ reaparece invertida criticamente: não se trata mais de embelezar a cidade por meio de imagens, para mais uma vez tentar livrá-la dos pobres e de todas as formas de sujeira, mas de tomar as imagens da cidade em dois momentos próximos cronologicamente e ao mesmo tempo tão distantes do ponto de vista das ‘ideias’, para, por meio delas, trazer à luz as tensões, os embates, os conflitos que a instauração de uma ‘vida moderna’ pode significar entre nós”, argumenta Chaves.
Realidade - O cinema na Amazônia precisa de um número maior de pesquisas que demonstrem não só as histórias sobre as famosas exibições dos cinemas na cidade, mas que exponham os variados contextos que com essa atividade se relacionaram. As conhecidas cenas sobre o cinema na Amazônia, no Pará, precisam ir além, precisam expor os vários aspectos de uma realidade que em muitos momentos dialogava com esse cinema, nesse sentido, o cinema não é só um mundo de encantos, mas também, um mundo de exposição, no sentido benjaminiano, ou seja, um objeto que exprime contextos, épocas, foi o que busquei com esse trabalho.