A partir dos anos de 1970 novas formas de estudar a cultura surgem, influenciados pela nova configuração política (com o avanço do processo de descolonização), informacional (com as novas tecnologias da comunicação) e pela crítica aos postulados iluministas (principalmente às idéias de uma razão que distingue o homem em capacidade e essência, um homem distinto e igual). Essas novas formas que ganham variadas denominações (estudos pós-modernos, pós-contemporâneos, pós-estruturalistas), fomentaram igualmente o surgimento de novos conceitos que podem ser tomados no interior daquelas discussões.
Um desses novos conceitos é a proposta metodológica de estudar os movimentos culturais a partir do que alguns teóricos, especialmente Néstor Garcia Canclini, denominaram de culturas híbridas ou processos de hibridação. Esse movimento de mudança conceitual e metodológica tão em voga hoje, deve ser pensado na apreensão dos processos culturais que se encontram já híbridos e daqueles que se negam ou se negaram a isso. Se hibridação são “os processos socioculturais nos quais estruturas ou práticas discretas, que existiam de forma separada, se combinam para gerar novas estruturas, objetos e práticas”[1], algumas das chamadas práticas discretas se enquadraram no movimento e outras a renegaram. Isso pode ser visto especialmente nos campos das representações de determinados processos socioculturais na Amazônia.
Sim, representações porque o conceito de identidade como algo fixo que pode ser definido como a essência de um povo, como a língua, raça e economia, para a metodologia das culturas híbridas e para uma certa antropologia não mais existe. Ela deve então ser entendida como representações que em determinados momentos tornaram-se hegemônicas através de determinado grupo social que mutatis mutandis se baseiam em outras representações.
É o caso de alguns escritores e cientistas do século XIX que ao representar a Amazônia tinham como mentalidade teórica o positivismo e o evolucionismo. Para esses, a mistura racial que originou o homem amazônico nada mais refletiria que uma impureza da natureza, uma falha na evolução que interferia no progresso da região. Escritores regionais como Inglês de Souza flertavam com tais paradigmas. Um de seus adeptos, o jornalista e crítico literário José Veríssimo, chegaria a sugerir como solução para curar os males da sociedade mestiça amazônica, que se deveria “esmagá-las sob a pressão enorme de uma grande imigração, de uma raça vigorosa que nessa luta pela existência de que fala Darwin, as aniquile assimilando-as, parece-nos a única cousa capaz de ser útil a esta província” e finalizaria alertando “E ai dela se assim não for”[2].
Certamente é um dos exemplos mais conhecidos de resistência frente a um processo de hibridação denominado pela antropologia clássica de mestiçagem. Entender esse processo não é apenas indicá-lo, e sim observar quais os discursos que o fundamentam, qual a sociedade no qual está assentado e quais as articulações com outros discursos, como o literário e histórico, por exemplo.
Esse processo de resistência não é na Amazônia exclusivo do século XIX. Nas últimas três décadas do século XX, a região passaria por um processo de mudança que atingiria diversos âmbitos de sua realidade, do interior às cidades até o indivíduo. A integração da região ao resto do país e a implantação dos chamados grandes projetos, determinaram um novo ethos para a realidade amazônica e algumas representações culturais refletiriam isso. No campo da pesquisa, a implantação de cursos e a proliferação de trabalhos destinados a estudá-la, no campo artístico algumas simbologias dessa mudança. O que as caracteriza é o questionamento frente às novas configurações que se impõem diante de uma hibridização e que tem como principal a modernização de um lócus anteriormente preenchido pelo tradicional e por uma aura de autenticidade/identidade.
Dois exemplos no campo das artes são expressivos: a trilogia de Benedito Monteiro, Verde vagomundo, O minossauro e A terceira margem, na qual a personagem principal, Miguel dos Santos Prazeres, verdadeiro coronel Kurtz de Apocalipse Now, é subvertido em sua existência por uma realidade que lhe é estranha; a invasão do Estado promotor da modernização nacional. Outro exemplo, talvez mais contundente, é a Trilogia amazônica, do poeta paraense João de Jesus Paes Loureiro. Estão ali, pela primeira vez em um projeto de escrita, as representações desse conflito sociocultural que se instalaria entre um mundo amazônico formado pela tradição, o caboclo e o mito e o novo mundo com sua razão multinacional-modernizante. Os seguintes versos de Deslendário (1985) exemplificam:
“Cada rosto aqui é imposto à lenda.
(O haver de ser. O não seria. O que não foi.)
Agora, o rosto oposto à santidade,
é o rosto do Jarí contra o de Antônio,
da Liquifarm contra do do Xikrin,
da Grande-empresa contra o Lavrador.
Então é rosto alguém”[3].
Essa literatura representaria, conscientemente ou não, a perda de uma noção de existência até então tida como a essência do macrocosmo amazônico. Evidentemente a ameaça de desestruturação desse mundo e do que ele representava fez com que essas simbologias desse movimento, de certa forma, resistissem a um processo de hibridação por considerarem-no negativo para o que se acreditava como sendo as raízes fixas do mundo regional.

Encontramos também outras formas de relação da cultura amazônica com elementos externos. Não são tão raras as configurações socioculturais que são reconvertidas, “as configurações que buscam reconverter um patrimônio em novas (uma fábrica, uma capacitação profissional, um conjunto de saberes e técnicas) para reinseri-los em novas condições de mercado”[4]. Um dos exemplos mais perceptíveis surge no folclore regional, com a reconversão do Boi de Parintins. Antes baseado em manifestação com características predominantemente populares e inserida em uma cultura local, o boi de Parintins foi reconvertido em espetáculo carnavalizado, que ocorre agora em um bumbódromo (sic) construído com capacidade para 20 mil pessoas, patrocinado por multinacionais e transmitido em rede nacional de televisão. Seria um exemplo típico de hibridação de um artefato cultural convertido em um outro processo sociocultural, através de sua entrada na modernidade, no moderno capital e na mercantilização cultural.
Situações semelhantes podem ser observadas no Pará, como os carnavais do interior e da capital que se transformaram nas famigeradas (alguns reclamarão desse adjetivo) micaretas, que para seus produtores – intermediários culturais na acepção de Bourdieu – representam lucros certos e determinados estilos musicais como o brega, que sofre fortes influências da música eletrônica.
Esse processo de reconversão que caracteriza a hibridação pode também ser verificado recentemente em determinados espaços arquitetônicos que Belém vem tomando. Um dos locais mais visíveis desse processo talvez seja o espaço Estação das Docas. Um lugar decadente destinado ao comércio, sendo reconvertido, por várias influências, em lugar de lazer – o que os estudos pós-modernos denominam gentrification. Essa reconversão, que não se enquadra explicitamente em um processo cultural simples que se transforma em outro, se configura em um processo de hibridação por ser reinserido “em novas condições de mercado”.
Longe de vangloriarmos as resistências ao multiculturalismo ou satanizarmos essas reconversões e hibridações culturais, é necessário que, ao invés de indicá-las simplesmente, se avance para a análise do processo que as propiciou. É desse modo que o método das culturas híbridas pode ser melhor empregado; percebendo-se que cada situação exige um estudo particular e uma análise interdisciplinar para compreendê-la. É como poderemos evitar uma análise ingênua e entusiasta da hibridização e, ao mesmo tempo, superarmos a idéia de que a realidade pode ser pensada através de idéias fixas e imutáveis.
Situações semelhantes podem ser observadas no Pará, como os carnavais do interior e da capital que se transformaram nas famigeradas (alguns reclamarão desse adjetivo) micaretas, que para seus produtores – intermediários culturais na acepção de Bourdieu – representam lucros certos e determinados estilos musicais como o brega, que sofre fortes influências da música eletrônica.
Esse processo de reconversão que caracteriza a hibridação pode também ser verificado recentemente em determinados espaços arquitetônicos que Belém vem tomando. Um dos locais mais visíveis desse processo talvez seja o espaço Estação das Docas. Um lugar decadente destinado ao comércio, sendo reconvertido, por várias influências, em lugar de lazer – o que os estudos pós-modernos denominam gentrification. Essa reconversão, que não se enquadra explicitamente em um processo cultural simples que se transforma em outro, se configura em um processo de hibridação por ser reinserido “em novas condições de mercado”.
Longe de vangloriarmos as resistências ao multiculturalismo ou satanizarmos essas reconversões e hibridações culturais, é necessário que, ao invés de indicá-las simplesmente, se avance para a análise do processo que as propiciou. É desse modo que o método das culturas híbridas pode ser melhor empregado; percebendo-se que cada situação exige um estudo particular e uma análise interdisciplinar para compreendê-la. É como poderemos evitar uma análise ingênua e entusiasta da hibridização e, ao mesmo tempo, superarmos a idéia de que a realidade pode ser pensada através de idéias fixas e imutáveis.
* Texto baseado em uma comunicação realizada na VIII Feira Pan-Amazônica do Livro.
[1] CANCLINI , Néstor Garcia. Culturas híbridas : estratégias para entrar e sair da modernidade. 4. ed. São Paulo: Edusp, 2003, p. 19.
[2] MAUÉS, Maria Angélica Motta. A questão étnica: índios, brancos, negros e caboclos. In: PARÁ. Secretaria de Estado de Educação. Estudos e problemas amazônicos: história social e econômica e temas especiais. Belém: IDESP, 1989, p. 195-204.
[3] LOUREIRO , João de Jesus Paes. Cantares amazônicos. São Paulo: Roswitha, 1985, p. 91.
[4] CANCLINI, 2003, p. 21.
[2] MAUÉS, Maria Angélica Motta. A questão étnica: índios, brancos, negros e caboclos. In: PARÁ. Secretaria de Estado de Educação. Estudos e problemas amazônicos: história social e econômica e temas especiais. Belém: IDESP, 1989, p. 195-204.
[3] LOUREIRO , João de Jesus Paes. Cantares amazônicos. São Paulo: Roswitha, 1985, p. 91.
[4] CANCLINI, 2003, p. 21.
4 comentários:
...E eis que ele ressurge das cinzas.
"...Longe de vangloriarmos as resistências ao multiculturalismo ou satanizarmos essas reconversões e hibridações culturais, é necessário que, ao invés de indicá-las simplesmente, se avance para a análise do processo que as propiciou. É desse modo que o método das culturas híbridas pode ser melhor empregado; percebendo-se que cada situação exige um estudo particular e uma análise interdisciplinar para compreendê-la."
Muita gente precisa saber disso.
=*
enfim, né, relivaldo..
quando comecei a ler, sabia que ias usar os exemplos que usastes. exatamente a mesma opinião que eu tenho sobre algumas gororobas culturais existentes aqui no Pará. E, por que não, no Brasil, já que esse é o país da suruba! hehehe.
Abraços e excelente texto. Continua postando, pô.
[]´s
Ègua!
O importante é perceber que em meio a tantas bobagens veiculados pelos veículos de comunicação ainda( espero que por muitas décadas)possamos ter esta oportunidade de disponibilização e acesso a outras fontes de conhecimento e compreenssão de nossa própria HISTÒRIA E REALIDADE AMAZÔNICA.
PARABÈNS pela análise!
Larissa Beatriz Aviz
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