segunda-feira, agosto 10, 2009

Tirésias está morto, ou o fim de uma experiência.



Quem é aquele que anda lentamente e senta em frente de sua casa para ver o tempo passar? É Tirésias? Tirésias não está morto? Quem foi Tirésias? Ele é o velho adivinho cego que confirma as previsões do oráculo sobre o destino de Édipo. O rei de Tebas ignora o ancião, a tragédia se impõe sobre o filho e esposo de Jocasta. Filhos que somos de Édipo, herdamos dele a incredulidade sobre aquilo que nos desagrada. A velhice nos desagrada, a toleramos como toleramos uma tragédia inevitável.

Olhem para as ruas, tentem perceber quantos velhos (antigamente velho era ter mais de 40) exibem seus cabelos encanecidos (aprendi com Machado). A sociedade contemporânea baniu de nossos olhos a idéia de que a velhice simboliza experiência, sabedoria, conhecimento. Pensamos sempre nela como algo aterrador. Ouvir os mais velhos parece algo angustiante, porque precisa-se ir à academia exercitar a idéia de não envelhecer.

A desvalorização dessa experiência já fora identificada por Walter Benjamin em Experiência e pobreza:

“Em nossos livros de leitura havia a parábola de um velho que no momento da morte revela aos seus filhos a existência de um tesouro enterrado em seus vinhedos. Os filhos cavam, mas não descobrem qualquer vestígio do tesouro. Com a chegada do outono, as vinhas produzem mais que qualquer outra na região. Só então compreenderam que o pai lhes havia transmitido uma experiência: a felicidade não está no ouro, mas no trabalho”[1].

O ouro de hoje deixou de ter na experiência (Erfahrung) dos mais velhos um caminho para ser melhor, a felicidade está no imediatismo da televisão, no tamanho do carro, no imprescindível ansiolítico. Cava-se um destino que se esvai, do qual nada se colhe. As vinhas nada produzem para próxima estação, não se quer a próxima estação, adia-se porque se imagina improdutiva, sedentos pela eterna juventude.

Ao invés de representar a maturidade, os velhos representam a decrepitude, ao invés de ser um estágio de uma vida é só, e somente só, o seu fim. A vivência (Erlebnis) transitória obriga uma intensa vivência e viver em um presente perpétuo prescinde do passado, da história, da memória.

O passado é visto como ruína que nada ensina, que não se pode juntar os cacos, que nada servem, inúteis fragmentos de uma vida que passou. Passamos pelas ruínas e não as reconhecemos. Olhamos para os rostos dos mais velhos como rostos arruinados, escutamos suas histórias como algo distante, distante que estamos de uma experiência que para nós não faz sentido.

Tirésias é o portador de uma experiência que narra o destino, o futuro, mesmo que sejam trágicos. Tirésias é cego, mas somos nós que fechamos os olhos para o que ele diz.

Quem é aquele que anda lentamente e senta em frente de sua casa para ver o tempo passar? É Tirésias? Não. Tirésias está morto.

Ps. Acima, Tirésias aconselhando Ulisses. Ulisses escuta, mas Ulisses, ao contrário de nós, é um homem exemplar.


[1] BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Obras escolhidas. 7ed. São Paulo: Brasilense, 1994, p. 114.

segunda-feira, junho 22, 2009

Tenho uma comunidade no orkut, ou simulacros e (dis)simulações.


Tenho uma comunidade no orkut. Qualquer vagabundo tem. Hoje, me envia um amigo, ela tem pouco mais de 20 membros e sua descrição é esta: “comunidade dedicada aos admiradores do professor mais bêbado-chato-irônico-sarcástico-rancoroso-detestável-antipático, porém amado por todos: Relivaldo de Oliveira”. Está errado. Não sou bêbado (tento, é verdade, sempre que posso) e muito menos amado por todos (não tento, é verdade, sempre que posso).

Um amigo me diz que vários professores têm comunidades feitas por outrem e de que é uma forma de homenagem. Huumm... sei.. Estou me tornando um pop star. Sou a Britney má da floresta. Isso é bom? Não sei. Temo ficar careca e abandonar minhas criancinhas.

Venho criticando, neste espaço, esse tipo de exposição. Mas não há como controlar o sadismo web, o masoquismo cibernético, o rancor on line do amante desprezado, ou uma declaração de admiradores.

Minha comunidade possui alguns textos e frases atribuídas a mim. Assumo-as. Um dos personagens criticado toda vez que nos encontramos me lança o olhar de raiva. Tadinho. Se fosse me importar com quem me odeia não faria outra coisa. Como Flaubert, acredito que o valor de um homem pode ser medido pelo número de inimigos que possui e pelo o que ele provoca de oposição.

Em uma defesa recente de um trabalho, um professor de filosofia amigo meu tocou nessa questão contemporânea: “Vocês já pensaram por que no orkut as meninas não são deprimidas, são todas amigas e gostam de ler?” É simples, como ele mesmo argumentou, porque no espaço virtual o que prevalece é a imagem, o imaginário, o simulacro (Baudrillard, Jameson).

Na esquizofrenia da vida contemporânea a imagem da menina reflete os adormecidos recalques de sujeitos fragmentados (Freud diria reprimidos). A menina quer ser popular, bonita e inteligente, mesmo tendo a beleza da maquiagem, a popularidade de um ditador e a inteligência de um basset.

Em uma reunião de amigos quando alguém estranho (só os estranhos fazem isso) aponta a câmera digital parece que vai capturar algo que quero que permaneça lá (Benjamin diria aura). Se digo não, ficam bravos. Não ligo, um miguxo a menos. Click!

Ter 20 amigos e dizer que sou amado por todos não reflete minha vida real. Mas quem se importa com a vida real? A pós-modernidade nos legou a vida ideal, mesmo sendo simulacional. Todos querem essa vida. Qualquer vagabundo pode tê-la.


P.s: A imagem acima é do Filme Blade Runner, de Ridley Scott, 1982. No mundo do filme já não se sabe distinguir imagem da cópia, humanos de replicantes. “Admirável mundo novo”.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

O que pode parecer particular é geral.


Romanos!
Como Vocês devem ter percebido este blog não possui um critério de atualidade. Os textos seguem temáticas que, de alguma forma, devem permanecer por algum tempo. Já disse que, como Mário Faustino, não penso que tudo que escrevemos deve se tornar eterno. A eternidade é para transcendentais. O máximo de transcendência em que acredito aprendi na escola, quando um dia coloquei uma semente no algodão e, no outro, ela não estava mais lá. Sumiu. Irmã Osmarina, minha professora, disse que “ela se metamorfoseou, transcendeu”. Platão deve ter dado de ombros.

Este blog também não tem como tema my life. Não falo de minhas aventuras pelas ruas, nem o que vou ou não vou fazer nos próximos dias. Isso não interessa a ninguém, a não ser a mim mesmo. Não penso que Vocês sejam padres a ouvirem minhas confissões. Aqui, até mesmo o que pode parecer particular, é geral, o que pode parecer uma frase é uma idéia.

Tenham certeza. Sempre o que escrevo é o que penso. Muitos podem fazer isso na web. No fundo, a maioria, nada nos ensina ou nos faz pensar. Bric-à-brac de gente que quer se sentir presente em um mundo no qual isso é cada vez mais difícil. Mas o que temos com isso? Temos essa montanha de futilidades de vidas vazias, que buscam sentidos e para isso nos enchem a paciência, como a moça que escreve que perdeu 20 quilos em dois meses, ou alguém que discorre sobre as divagações etílicas da noite anterior. Algumas podem ser até engraçadas. Prefiro Monty Phyton.

Só escrevo sobre o que sei. Não tolero o que é fake, vazio, vulgar. No mundo de hoje é quase decretar suicídio. Mas meu niilismo não é tolo. Sinceramente, gostaria de acreditar em mais coisas, como as pessoas que dizem: “bom, agora vou comer, ir pra cama, ver tv e dormir”. Nossa! Como isso é telúrico. Não sou infeliz, mas uma certa rotina me enfada, além de ir ao supermercado (para determinadas pessoas isso é um evento). Não vejo plenitude no tomate (“vejam que tomate essencial, iluminado, e esta beterraba hein! Que jogo de cores!”).

É claro que todos temos nossas frivolidades e obrigações cotidianas, mas daí a elas se tornarem públicas e exemplares, é a distância que existe entre o seu desjejum e o café da manhã descrito por Proust em Combray. Sua madeleine, no máximo, é um pão mole perto do talento do escritor francês.

Volto a estes temas para dizer, aos leitores (que são poucos, imagino, dentre outras coisas, exatamente pelo motivos expostos acima) deste blog, que não sei como ele andará agora. Fui convidado para exercer um importante cargo na Universidade onde trabalho. Aceitei. A covardia não é um dos males que me assola. Os covardes, além de um certo desprezo, me provocam risos. São como Carlitos, como disse André Bazin, porque não se enquadram no mundo e vivem correndo da realidade.

Informarei sobre as atualizações deste espaço. Espero continuar a ter o privilégio de ter poucos, mas admiráveis leitores. Mesmo que tenha que escrever um texto tão pessoal quanto este. Quem quiser que continue lendo. Ou ignore e transcenda. Irmã Osmarina ficaria orgulhosa.


P.S: A tela acima chama-se Rising sun. É de Paul Klee, Pintor Suíço que acreditava que “a arte não reproduz o visível, mas torna visível”. Penso da mesma forma em relação`a cultura, à escrita, a este texto.

sexta-feira, janeiro 02, 2009

Red Clay, 12':12".


"Aconselho qualquer jovem trompetista a não fazer o que eu fiz, porque este estilo pode ser prejudicial à saúde". Recomendou, provavelmente ironicamente, aos futuros músicos, Freddie Hubbard, o trompetista morto no penúltimo dia de 2008. Recomendo exatamente o contrário. Explico. Antes, um breve divagar.

Quando Hubbard estreou, no final da década de 50, o jazz já era um ritmo disseminado nos Estados Unidos, algumas das principais correntes, swing, bebop, cool, já haviam surgido e era a vez de um estilo que fizesse um contraponto ao establishment de Miles Davis, aproveitasse outras influências como o funky e o gospel e reagisse ao surgimento do Rock ‘n’ roll. Daí surgiria o hardbop, personificado no grupo Jazz Messengers, criado pelo baterista Art Blakey. Um estilo que traria em suas composições andamentos diferenciados, um pouco mais rápidos e intensos que o bebop, mas, em muitos casos, mais simples que os acordes de Charlie Parker e valorizava a presença de solistas como o baixista Charles Mingus com o seu “The black saint and the sinner lady”, o indomável pianista Thelonious Monk e principalmente John Coltrane com o cultuado “Giant steps”. Basta ouvirmos esse último, para termos uma noção de como o jazz modal poderia chegar ao status de uma polifonia agradável, assimilável e renovadora.

Hubbard tocou por quatro anos com Blakey e já demonstrava que seu estilo comedido, temático e ao mesmo tempo expansivo e variável, “exuberante” nas palavras de Winton Marsalis, conquistaria vários seguidores. Suas gravações com o pianista Herbie Hancock, em especial em “Empyream Isles”, confirmaram ainda mais a idéia de que surgira mais um músico que faria jus ao panteão que lhe havia precedido.

Na década de 70 o trompetista gravaria seus principais álbuns solo. Em um deles está a música que batiza o mesmo, “Red clay”. É com “Red clay” que podemos entender o estilo a que se refere Hubbard no início deste texto. No disco, há duas versões e elas servem exatamente para compreendermos como o jazz foi, em variados momentos, o único estilo musical capaz de valorizar a música como artefato de valor imanente, contemplativo e não apenas como reconhecimento e compensação.

A primeira versão da música é a de estúdio. Andamento mais lento, tema conduzido perfeitamente com uma introdução forte de metais e bateria (Lenny White), uma exposição temática e um desenvolvimento com uma seção rítmica que segue em conjunto com o “chórus” e solos dos músicos (nada menos que Herbie Hancock, Ron Carter, baixo e Joe Henderson, sax tenor) até à recapitulação.

A segunda versão é ao vivo. Com 18 minutos, sete a mais do que a primeira, foi uma imposição da gravadora e, ironicamente, se tornou um dos melhores exemplos da capacidade do jazz em se diferenciar da repetição musical e de como o tocar ao vivo proporciona a essa música possibilidades inauditas em outros estilos que, tecnicamente frágeis, não têm muito o que fazer diante da platéia. A música ganha em intensidade e virtuosismo, principalmente pela participação de George Benson na guitarra e pelas variações melódicas do próprio Hubbard. Cada músico executa seu improviso, mas ao contrário da primeira versão, várias notas se modificam e em alguns casos a melodia é bastante diferente da versão anterior, em especial no sax de Stanley Turrentine e na participação vigorosa da bateria de Billy Cobham que, aos 12':12", parece explodir o bumbo anunciando o clímax final. E, ao final, com seu trompete, Freddie Hubbard nos diz: “this is my style”.

Já escutei "Red clay" dezenas de vezes. É um clichê, sei, mas sempre identifico algo novo e sempre sinto algo diferente em relação à música. Se você gosta de algo mais reconhecível (ah a metáfora do espelho!), vá escutar algo como Kenny G, o eterno retorno do nada, ou o resto da covarde vulgata musical, essas músicas de 15 anos (frase cunhada por um amigo), idade muito acima da idade mental dos tigres das cidades.

Recomendo aos jovens que sigam o estilo de Hubbard. É original sem ser pedante, é renovador sem ser impenetrável, é assimilável sem ser gratuito. Platão (que temia a arte) dizia que a “poiesis” é a verdadeira recriação do mundo através de formas inexistentes, como o escultor faz com a argila; antes disforme, ele, com seu trabalho, engendra uma nova realidade. A argila (clay) de Freddie Hubbard engendra uma nova forma de relação com os sentidos, com nós mesmos, com a realidade, que precisa ter forma, sentido, harmonia, intervalos, variações, estilo.