quinta-feira, novembro 11, 2010

Ausência, Presença.

Prezados,

Este espaço está há tempos sem nova publicação devido aos compromissos pessoais do autor. Em breve, espero muito breve, os textos voltarão. Relembro apenas que, como os textos não seguem o critério de atualidade a todo custo, creio que os textos permanecem para quem quiser lê-los.
Aproveito para divulgar a Revista Repraesentatio http://repraesentatio.wordpress.com/ que reúne parte dos meus textos e vários outros de jovem pesquisadores interessados em compartilhar, em um único espaço, seus trabalhos sobre cultura. Os textos seguem um tom de seriedade, mas com leveza, alguns são acadêmicos, outros são publicações periódicas. É relevante? É. Quem disse? Eu, ora!

Helênicos, sintam-se cumprimentados.

segunda-feira, maio 10, 2010

Texto no Digestivo Cultural

Helênicos!

O texto intitulado “Lady Gaga, uma aula do pastiche” foi publicado no site do Digestivo Cultural. Em essência é o mesmo texto publicado neste espaço, mas está ilustrado de modo melhor e traz um link para o vídeo. Aproveitem para conhecer o site. O link para o texto é: http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=2985&titulo=Lady_Gaga,_uma_aula_do_pastiche .

É isso, quando não estou elucubrando sobre problemas metafísicos, estou a escrever sobre questões frugais, quando não estou pensando em categorias, estou categorizando o pensamento.

Sintam-se cumprimentados.

quinta-feira, março 18, 2010

Lady Gaga, uma aula do pastiche


“Cara, esse clipe é, tipo, o máximo”, diz a menina da MTV se referindo ao clipe “Telephone”, lançado recentemente, com Lady Gaga e Beyoncé e com a direção de Jonas Åkerlund. O videoclipe é um dos símbolos da contemporaneidade. Usa uma narrativa que nem sempre quer contar uma história coerente, muitas vezes sequências e cortes rapidíssimos e a imagem é predominantemente apenas imagem, sem precisar explicitar o que se mostra, o que surge, e nem lançar algum tipo de lição que precisa ser apreendida.

Na televisão, uma matéria lançava uma pergunta a algumas “personalidades” sobre “os dez motivos para gostar de Lady Gaga”. Todos falavam de inovação, criatividade, estilo, choque. Parte considerável, para não dizer dominante, da cultura contemporânea julga que alguns figurinos extravagantes, entrevistas chocantes e provocação feminista são suficientes para valorizar algo, uma cantora, um produto. A rigor (e com muito rigor), Lady Gaga não revoluciona nada na cultura, muito menos na cultura pop. Mas a cultura pop é o reino das referências, do reconhecível, de uma estética repetitiva que parece inovar. O pop é, e sempre foi, um reaproveitamento de culturas e formas anteriores, mas diferentemente, daquilo que se pode tomar como cultura “séria” (Adorno), esse reaproveitamento não propõe algo crítico, ou que pretenda mudar a estética vigente; diferentemente da avant garde, o pop apresenta o novo sem inovar, coloca novas vestes no mesmo corpo, canta sem ter voz.

Uma das características dessa estética contemporânea é o pastiche, as referências a conteúdos anteriores, uma imitação que copia o que já fora realizado. Essa referência não critica o anterior, não cria estilos autênticos (como certa estética modernista se propunha), e sim reaproveita a forma e o imaginário que já fora formado sobre esses elementos estéticos para ser reconhecível, digerível.

Isso, que Fredric Jameson já definiria como a estética predominantemente pós-moderna, assumiu características que refletem muito o juízo estético contemporâneo. Logo que o vídeo-clipe da cantora foi lançado, começou a surgir uma quantidade gigantesca de elogios nos mais variados meios. Para muitos, “Telephone é o clipe do ano", “uma aula de cultura pop”, “exemplo de imaginação e criatividade”.

O vídeo de “Telephone” é repleto desses elementos “inovadores”. O videoclipe se inicia com Lady Gaga em um tipo de prisão que mais parece um prostíbulo. Após dançar um pouquinho, a cantora sai da prisão (sic) e é apanhada por Beyoncé em uma caminhonete colorida (tudo é muito colorido no vídeo). Travam um diálogo (inútil) e então as duas seguem em direção a uma lanchonete onde envenenam todos os clientes, a começar por um bad boy que parece um gansgsta rap. Nesse trajeto, elas fazem coreografias, trocam de roupa pelo menos seis vezes e, vez por outra, cantam.

Figurinos extravagantes (Lady Gaga chega a usar óculos feitos de cigarros esfumaçantes e um tipo de chapéu feito de telefones), carro em alta velocidade, mulheres assassinas e uma narrativa, que é um pastiche de Quentin Tarantino, seguem dando o tom da “inovação”. A sexualidade, como temática central, fecha o círculo “revolucionário” dessa estética contemporânea.

Pode parecer surpreendente, mas não acredito na visão apocalíptica (U. Eco) de que a cultura tenha tido sempre objetivos edificantes e que necessariamente tenha sido esclarecedora. Essa visão, de certa forma romântica e aristocrata, não representa a enorme quantidade de espetáculo nonsense que já existiu. A questão é que essa cultura contemporânea tem um alcance maior, mais eficiente e mais persuasivo. O jovem da MTV não está em busca de um visão esclarecedora da vida; a vida já lhe deve parecer complexa demais (para alguns, lembrar de tomar banho já é complexo demais). Talvez a virtualidade de uma cultura que lhe pareça sempre nova seja mais interessante. É facilmente assimilável, é propositalmente gratuito, parece realmente interessante e estranhamente inovador.

Lady Gaga quer chocar, mas quase nada mais choca nesse mundo sem privacidade; quer ser diferente, mas quase tudo é pastiche. O pop precisa de uma nova Madonna que não pareça uma ninfeta pomba-lesa (Britney), nem apenas uma cantora de R&B que acompanha rappers negros vestidos de branco. Procura-se uma mistura de fashion kitsch com atitude girl power; procura-se uma mistura de personalidade desafiante com músicas desafiadoras. Mas Lady Gaga não desafia nada, apenas reforça a artificialidade do pop. Travestindo-se de novidade, quer impactar; reaproveitando o que já existe, se apresenta como diferente.

“Telephone” está perfeitamente de acordo com esse espírito. È uma aula do pop, é um ensinamento do pastiche. Julgamos ser um produto excelente porque repleto de referências à cultura pop e que nós, com nosso imaginário repleto dessas formas, reconhecemos imediatamente e, por essa identificação, atribuímos qualidade. Para nós contemporâneos, o original é a repetição, a criatividade é a citação.

Em uma das seqüências do vídeo, Lady Gaga prepara o veneno que matará os clientes da lanchonete. Como um mago, ela faz uma mistura de vários produtos para que o líquido obtenha o efeito desejado. A cultura pop é bem menos complexa. Basta pegar uma loura que dance, se vista como um carro alegórico e pareça ter alguma atitude que a fórmula está pronta.

Bebamos a nossa porção repleta de novidade. “Tipo, é o máximo” que nos resta.