Sexta-feira, Março 12, 2010

O prazer de expor idéias, ou jornalismo e democracia.


Certa vez, no programa manhattan conexion, Lucas Mendes pediu a Paulo Francis que falasse sobre o pintor norte-americano de origem holandesa, o abstracionista Willem De Kooning (ver aqui http://www.youtube.com/watch?v=zZ0iG7iLRno&feature=related, se quiser economizar tempo, vá para 3’:15”). Francis tinha dois minutos. Sem olhar nem um papel, falou sobre a arte do renomado pintor. Francis ensinou. Ao final, Lucas Mendes pegou no braço de Francis e disse: “muito obrigado”. Rememoro esse episódio porque umas das poucas alegrias de um intelectual é ser reconhecido, não apenas pelos seus pares com a benção sempre lisonjeira – e quase sempre falsa - dos acólitos. É uma das poucas alegrias que tenho como alguém que tenta transmitir algum conhecimento. Uma espécie de De Kooning realista.

Essa manifestação sincera e que não antevê nenhum tipo de benefício é coisa rara “em tempos sombrios” - para glosar o título de Hannah Arendt. Rara porque se alguém se arvora a falar sobre algo que o outro discorda - e, com argumentos, mostra outra visão possível -, o discordante tende a usar os antolhos de sua sabedoria e se fecha na sua ensimesmada forma de pensar. Assim é quando se fala de arte (ainda se fala de arte?), assim é quando se fala de jornalismo.

Em uma de minhas recentes explanações, falava sobre a relação entre democracia e jornalismo. Como o tema sempre é tomado pelo viés do “o jornal é a voz do patrão” e, como sempre, tendo a divergir do que se apresenta como lugar comum e é impregnado por ideologia rasteira e pouco crítica, apresentei outras idéias que fogem dessa simplificação tão prejudicial para a compreensão tanto do papel da imprensa, como das garantias da sociedade democrática.

Não disse que os interesses comerciais não possam interferir na linha editorial da imprensa – e em uma região como a amazônica isso é ainda muito presente -, mas disse que outros fatores interferem, como o custo, as ideologias dos jornalistas, o tempo e o consenso social. Expliquei isso e falei como a democracia está diretamente relacionada à idéia de objetividade jornalística (questionável em muitos aspectos), um dos pilares de uma sociedade democrática.

A sociedade democrática é visceralmente influenciada pela relação, necessariamente próxima, mas não reflexiva, no sentido de reflexo (exatamente porque o jornalismo é um discurso, uma construção simbólica sobre a realidade), entre o relato e o fato, o relato e o compromisso se não com a “verdade”, certamente com uma aproximação necessária da verdade. Daí deriva, ou deveria derivar, a credibilidade do relato jornalístico e, por conseguinte, do jornalista. Alguns editores não acreditam mais nisso, preferem acreditar na menina bonita que apresenta o jornal, ou no jornalista que gosta de futebol e demonstra isso com todos os clichês do jornalismo esportivo.

No Brasil, vários fatores interferem nessa ausência de princípios democráticos e da tentativa de cerceamento da atividade jornalística. Em especial, uma ideologia política que quer assumir a consciência pela conscientização. Ideologia que é adepta do pensamento de que seus ideais são os bons ideais e de que, se há crítica por parte da imprensa, é porque a imprensa ou é golpista ou não está comprometida com o social, “é a voz do patrão”.

Para os adeptos desse modo de pensar, a objetividade jornalística só pode ser vista sob os auspícios de uma idéia de mundo tomada como redentora e edificante, mesmo que essa idéia tenha atentado (e continua) contra a democracia, a liberdade de imprensa e os direitos individuais em vários países. Os que não aderem a essa ideologia são “parciais”, insensíveis ou conservadores. Os progressistas falam em democracia, quando querem o controle da informação; falam em “imparcialidade”, quando querem a parcialidade dos “bons” (deles).

Ao acabar minha fala, os que estavam presentes começaram a sair. Eu, de cabeça baixa, com os cotovelos sobre a mesa, as mãos unidas e os olhos fechados senti uma mão em meu ombro. Abro os olhos e me volto para a responsável pelo gesto. Uma Senhorita elegante (com um bom perfume, bem vestida e voz delicada) então diz: “obrigada professor”; eu perguntei: “pelo quê”; ela respondeu: “pela sua aula”.

Sei que, para muitos, isso não é grande coisa e nem eu estou aqui me vangloriando por isso, mas acredito que um dos principais papéis daqueles que expõem idéias é explicitá-las para que o mundo se torne menos opaco e as pessoas menos obtusas – estou pensando, talvez, com um certo iluminismo original. Isso não quer dizer, evidentemente, que o que se diz não possa ser contraditado, a democracia admite a contradição. Isso faz parte de um dos preceitos ideais (idealizados?) do conhecimento; isso faz parte de um dos principais preceitos do jornalismo e de um regime democrático. É preferível a contradição à pena única que se coloca como verdade.

A verdade, a busca de uma maior relação entre conhecimento e realidade se dá, de certa forma, na academia e no jornalismo, de modos semelhantes: buscando a relação entre discurso e realidade; o discurso como intérprete do real, que deve representá-lo buscando tornar o mundo visível de modo verdadeiro e coerente para o indivíduo. Ambos possuem seus métodos. Se um é, digamos, mais detido e rigoroso, o outro deve organizar, com seu rigor, o caos do nosso cotidiano.

Pode ser um ideal, mas não se precisa confundir o ideal com o vazio, como não se deve confundir abstracionismo com ausência de significado. Prefiro um De Kooning que representa as formas sem ser o reflexo da realidade; prefiro um jornalismo que defenda a democracia sem se submeter à obediência de um realismo abstrato.


P.S: Acima, “Woman I”, de De Kooning. A realidade ali não está totalmente ausente, e sim representada através de outras formas. Para o jornalismo, representar o real com objetividade é uma de suas obrigações, apenas assim a democracia pode se tornar um quadro, que pode parecer imperfeito, mas que ajuda a expulsar as formas (sempre sutis) de um realismo (idealismo) totalitário.

10 comentários:

Anônimo disse...

Parabéns,
Espero que muitos leiam e entendam.

Ana Paula Câmara.

Cintia Rodrigues disse...

A busca da verdade no jornalismo, é quase uma utopia, na dura realidade cotidiana de sobrevivência.Gostaria que tudo fosse diferente, que a democracia fosse, de fato, uma regra a ser seguida. Porém a imprensa "hoje", mais do que nunca, é capitalista.Tudo funciona, não como um grupo, que deveria ser, mas com o idealismo solitário daquele que visa o lucro, como uma razão de ser e viver.
É triste saber que, de alguma forma, somos escravos das palavras ocultas e inertes que deveriam caminhar com liberdade, para uma melhor compreensão do mundo,que acredito, fazermos parte.
Agradeço, em especial, à você professor "Relivaldo", por ter feito parte, e ter contribuído, e muito, nesse meu pequeno universo de conhecimento que, "quizás", pretendo expandir, com a força e coragem que Deus, sempre haverá de me proporcionar.

Guilherme Guerreiro Neto disse...

Relivaldo

Logo no tempo dos relativismos ficamos cada vez mais intolerantes. A ponto de ouvirmos só os argumentos que nos agradam ou nos contrapormos ao argumento alheio desqualificando o sujeito, não o discurso.

Quanto à relação entre jornalismo e democracia, a institucionalização da profissão jornalística certamente se sustenta em preceitos democráticos, como visibilidade (tornar visível), liberdade e representatividade. Mas a grande contradição da imprensa é vincular-se, ao mesmo tempo, a uma lógica democrática e a outra comercial. Legitima-se apenas pela primeira, mesmo que diariamente a segunda esteja escancarada nos jornais. Ou seja, o discurso legitimador e a prática profissional ficam mais distantes e deixam brechas para questionamentos sobre a validade do jornalismo.

Penso que a instabilidade (ou crise) é importante por expor o debate sobre o jornalismo e permitir reavaliar as formas de legitimá-lo. Do ponto de vista político, a impressão que tenho é que a sociedade fica mais exigente com a imprensa – e mais atenta a falhas ou distorções – quando a democracia está mais consolidada, ou seja, quando não há um poder central opressor.

A principal cobrança que recai sobre o jornalismo diz respeito ao reverso da medalha em que a liberdade está cunhada: a responsabilidade. Nenhuma liberdade é ilimitada. O problema é que as propostas de estabelecer limites costumam estar ao lado de tentações autoritárias. O termo “controle social”, por exemplo, é de tamanha amplitude conceitual que não me arisco a dizer se concordo ou discordo sem a devida delimitação de quem o pronuncia.

A democracia não apenas admite contradição, faz dela sua força motriz. Por isso o jornalismo ainda existe. E por isso deveríamos pensar em como tirar da profissão a aparente inimputabilidade que há, sem cair na armadilha de apoiar crivos estatais.

Abraço

Relivaldo de Oliveira disse...

Guerreiro,

É verdade que exista a influência comercial no jornalismo. Mas é verdade também que essa lógica tende a influenciar mais ainda os jornais que dependem quase que exclusivamente do anúncio estatal. Ao contrário do que podemos imaginar, e do que aprendemos ad nauseam com o discurso anticapitalista vulgar, um mercado privado forte e diversificado tende a fornecer uma maior liberdade, não é o que sempre ocorre, repito, mas existem exemplos (e não poucos) que se aproximam da liberdade ideal de informar. Os problemas devem ser apontados e corrigidos, nunca escondidos ou tratados de modo totalitário e inquisidor.

No mais, reitero suas palavras.

Abraço,
Relivaldo de Oliveira.

Lorena Moreira disse...

Excelente texto.

Ao menos, para quem pretende cursar e estudar, ou estuda o jornalismo e suas relevantes teorias e práticas, com a ideia de mudança, na comtemporaneidade. Concordo e acredito também, tendo como proposta jornalismo e democracia, que no Pará as empresas jornalísticas privadas que, certamente, fluem para questão sócio-político usando, de certa forma, a "Liberdade de imprensa" (Marx), onde as necessidades de sobrevivência ou de ação política encaminham a imprensa à produção jornalística, em massa. De maneira que a democracia seja aplicada, ao apresentarem suas notícias sobre o estado com o intuito de, cada vez mais, atingir a maioria da população. Porém, como ressaltado acima, "Os problemas devem ser apontados e corrigidos, nunca escondidos ou tratados de modo totalitário e inquisidor".

Saudações,
Lorena Moreira.

Ana Lucia Prado disse...

Caro Relivaldo,

Tua bem estruturada argumentação me fez lembrar de uma recente entrevista que li com a jornalista norte-americana, Jan Schaffer. Ela, que é ganhadora de um Pulitzer, advoga a revisão de conceito de notícia, mas, e sobretudo, uma ampla ruptura com o modelo de jornalismo que hoje é exercido em boa parte das democracias no mundo.
Concordo com Jan, concordo contigo quando dizes que apenas "os interesses comerciais não possam interferir na linha editorial da imprensa – e em uma região como a amazônica isso é ainda muito presente -, mas disse que outros fatores interferem, como o custo, as ideologias dos jornalistas, o tempo e o consenso social".É um pouco por aí o que penso (no fundo é um pouco percebido por mim da tua fala). É que para além das questões deontológicas (e com isso as ideológicas, sim) e as comerciais, o que me saltam aos olhos é a incompetência para se fazer jornalismo honesto e competente. Usa-se os impedimentos gerados pelos conflitos em nome do interesse comercial da empresa jornalística e o interesse público para no fundo disfarçar a preguiça e a falta de uma larga bagagem cultural para exercer esse ofício fundamental, contudo, infelizmente praticado em algumas searas com total desleixo para com o público.
Um abraço e que o debate prolifere

Relivaldo de Oliveira disse...

Ana, Você faz parte daquelas cinco pessoas para quem me interesso escrever, exatamente porque, sempre que pode, demonstra uma inteligência aguçada.

Concordo com Você em tudo, especialmente a respeito da incompetência que tenta se justificar com o discurso do mercado, do “o jornal é voz do dono”. Esse discurso, tão propalado por uma análise “sindical”, quer mesmo é democratizar a informação com os chamados movimentos sociais (sic), ou seja, corremos o risco de termos uma TV hiper híbrida. A sociedade brasileira está sendo dividida entre raças e minorias em nome de uma democracia enviesada e cega. O mérito, seja pessoal ou do jornalismo, é apenas um detalhe.

Abraço,
Relivaldo de Oliveira.

Yza Sarmento disse...

Relivaldo querido, que bom que teu blog existe! Duas coisas:
1)Leio teu texto um dia após receber um comentário no meu blog: "deixe as fraldas antes que querer se meter a falar de política". E você vem, brilhantemente, dizer que “o discordante tende a usar os antolhos de sua sabedoria e se fecha na sua ensimesmada forma de pensar”. No dia seguinte, recebo um email de um aluna da Unama, pedindo o artigo que cito no texto do comentário anterior, pois o link estava quebrado e ela tinha interesse pelo tema. Óbvio, que ao contrário de você, não ensinei, mas senti que mesmo incomodando a uns, despertei essa ‘cuíra’ de saber um pouco mais. A mesma que você despertou em mim quando eu tinha 15 anos e havia entrado na universidade...a mesma que me faz querer trilhar passos parecidos com os teus. Te agradeço muito por isso.

2)Se tem uma coisa que sempre me incomodou nas palestras e debates é colocar no patrão a culpa de todos os males do jornal, como se isso inviabilizasse o trabalho inteiro e a função do jornalismo. Rousiley Maia, diz que os medias são “instituições híbridas, ao mesmo tempo políticas, econômicas e culturais profissionais”. Isto é, o ‘capital (tão quisto e combatido) é um ponto em toda essa rotina produtiva. Quando repórter, várias vezes, antes da ‘auto-censura’ de que o patrão vai cortar a matéria, me questionei: ‘será mesmo que eu sei escrever sobre isso?’. Essa representação do real almejada passa desde aí: na aptidão com o tema do repórter, do (des) conhecimento daquele que edita e também do patrão.



Um abraço
Rayza.

Relivaldo de Oliveira disse...

Prezada Rayza,
Não ligue para essas manifestações, em sua maioria são reclamações “do amante rejeitado” (Paulo Francis). Querem ser inteligentes, mas a natureza não permite, lêem meio livro por ano, desistem de tudo, só acreditam na ofensa e na inteligência osmótica da luz, ou de outras substâncias que julgam ser inspiradoras. Trabalho árduo? Que nada, aprenderão tudo com sua mágica relação com a realidade, quando revelamos a estupidez de suas elucubrações se enfurecem. Eu sempre as revelo, eu sempre demonstro, eu sempre quero incomodar a mediocridade, por isso sou tão amado por esses (as) luminares.

O papel de ser um intelectual é formar uma inteligência (pessoas, idéias) capaz de fazer frente a essa gente. Fico feliz por ter despertado isso em Você, fico feliz que a tenha influenciado de alguma forma, é a gratificação que posso ter, não espero nada além disso.

É pouco? Não. Pouco é o só ter a canalhice travestida de crítica para mostrar, pouco é continuar um vagabundo intelectual achando que a vida é assim mesmo e nada pode ser feito, pouco é ter a covardia como virtude.

Rayza, nunca se acovarde diante de um desafio, diante de uma polêmica, mas não precisa dar bola para vadios e larápios da honra alheia. Não tenho mais paciência pra esses tipos, a minha paciência se restringe a quem pode me oferecer algo além de sua baba espumante, minha paciência ainda existe para pessoas como Você. Aos vagabundos, covardes e medíocres, faça como eu, dedique o solene e perene ostracismo.

Abraço querida,
Relivaldo de Oliveira.

Paulo Alves disse...

Relivaldo,

Estava pesquisando conteúdo sobre as palavras-chave "jornalismo" e "democracia" (algo pelo qual sempre me interesso) quando encontrei o teu blog.

A aula a que se refere em epígrafe foi ministrada na 7JLN, creio.

Nesses tempos de obscurantismo, de combate velado aos preceitos democráticos, faz-se mais do que necessário que todos tenham fixas ideias como as expostas aqui.

Para alguns grupos políticos organizados, suas ideologias (deturpadas) à moda da sempre evocada dialética, justificam tudo, desde que se chegue ao objetivo final, ao maior estilo às avessas de Maquiavel.

Para outros, basta que se considere o debate político no cenário real e honesto (somente no debate, é claro, sem entrar em outro mérito), em que as divergências são aceitas e discutidas, como manda a Democracia.

Em um momento de disputas políticas, que se escolha o melhor. Mas o melhor para a Democracia. Não a "democracia social", como diria inescrupulosamente Emir Sader, mas a única Democracia existente, aquela em que acreditamos, a ideal, que não se sujeita a relativismos.

Que sigamos lutando por esses valores, os ideais. Mas sem ideologia, pois esse termo já foi apropriado por "eles".

Apropriado e deturpado. No maior estilo... "deles", que querem deturpar também o Estado Democrático de Direito.

Um abraço e obrigado pelas aulas sempre esclarecedoras.

Paulo