Sexta-feira, Março 05, 2010

Um poltergeist com consciência, ou a resposta à mediocridade.

Um leitor envia um comentário que precisa ser, como direi, respondido de modo mais detido. Ele fala de meu trabalho e, como não poderia deixar de ser, tenta lançar uma crítica “ponderada” sobre o texto. Segue, comento em seguida:

Caro professor,
Li seu texto. Muito bom!. Penso que se me deu trabalho ler e compreender, muito mais terá dado a você para escrever. Confesso que gostei. E também que estou de acordo com quase todo ele. Gosto até de suas pequenas diabruras e zangas, afinal, legítimas.
Pois bem, tranquilize-se, professor, pois acredito que cada um deve estudar o que quizer. Todavia, não podemos cair no erro de acha que só o que é escrito com nossas mãos é inefável.
Aliás, a universidade encontra-se permanentemente esmagada por figuras de cientistas emproados, incapazes de uma relação menos autoritária. Logo que uma ideia nova surgisse. Ou não existe ideia nova. Se não há. Então, de onde saíram as ideias que formam o corpo teórico de sua famosa obra? Finalmente, queria dizer que estou cansado. Cansado de ver tanta intolerância. Cansado de enxergar tanto autoritarismo disfarsado de democracia. Chega de tanta gente boa e genial. Curioso você critica os outros (esse tema é meu). Mas, quase, que inconscientemente (ou não) faz o mesmo (crítica literária esse tema é meu). Mais uma vez. Excelente texto!!! Abs.


Comento:

As pessoas quando se referem aos meus textos costumam dizer que eles refletem minha personalidade. Se o texto possui um tom mais contundente e não se furta em realizar críticas e nem de apontar os motivos da crítica, eles acham que estou zangado, bravo e – tal como o arquétipo do gênio - carcomido pela incompreensão do mundo e de que por isso perpetro “diabruras” sobre as pessoas, como uma espécie de poltergeist com consciência.

E aí me pedem calma. Não é demais? O Sr. Anônimo diz que cada um deve estudar o quiser. Lamento Sr., mas nunca impedi ninguém de estudar nada, nem nunca irei fazê-lo, se o sujeito quer estudar as culturas índígenas na sua intersecção com os parangolés de Hélio Oiticica que o faça, o que eu tenho a ver com isso? O problema é exatamente o contrário meu caro, é que as pessoas não estudam, e se arvoram a se pavonear sobre aquilo que não conhecem e isso sim é, infelizmente, inefável e assaz peremptório (nossa, que palavras cultas!).

Dizer que a universidade se encontra esmagada por professores pretensiosos (emproados) e autoritários é desconhecer completamente a realidade da universidade brasileira. Os professores sérios e competentes são tomados como autoritários, os “legais”, são tomados como incríveis. O que esmaga a universidade não é a competência que incomoda os incompetentes, é exatamente o contrário. A universidade (generalizo para melhor compreensão) se preocupa, em muitos casos, muito mais em apoiar determinada ideologia do que ensinar, em aderir ao politicamente correto do que respeitar a constituição, ou a fazer política partidária quando deveria estudar a política. Fui claro? Ou quer que eu vá ao quadro magnético?

Em seguida em seu comentário, o Sr.Anônimo faz um mistura digna de um poetastro. Fala sobre meu trabalho e perpetra um lamento choroso, vazio e mal escrito. Diz, querendo ser irônico, ser minha obra famosa e adepta de idéias novas. Pergunto: O Sr. já leu alguma obra minha, como sabe que minhas idéias são novas? Ora, está aí uma coisa que não persigo, a fama; talvez a glória.

O Sr. Anônimo diz estar “cansado de ver tanta intolerância. Cansado de enxergar tanto autoritarismo disfarsado (sic) de democracia. Chega de tanta gente boa e genial”. Só há um remédio para a democracia, mais democracia, é isso que combate a intolerância, mas se Você confunde democracia com vale-tudo, ou com o desrespeito às leis estabelecidas, aí é o caso de estudar mais um pouquinho; precisamos sempre de “gente boa e genial” que dê um pontapé na vigarice intelectual; quem não gosta disso é vagabundo que vive numa nice, achando que o medicamento que toma para sua depressão é fruto de um insight do hippie da praça.

Com um final virtuoso, diz o Sr. Anônimo: “Curioso você critica os outros (esse tema é meu). Mas, quase, que inconscientemente (ou não) faz o mesmo (crítica literária esse tema é meu)”. Que inconsciente que nada, é consciente mesmo! Mas não julgo que a crítica literária seja um tema meu, pelo contrário, existem críticos melhores do que eu, sei reconhecer isso e não bato o pé ou saco um índio do bolso para tentar impor o contrário. Escrevo neste espaço coisas que julgo relevante, sem me furtar a realizar críticas, mas nunca me tomei como dono da verdade - Platão, há 15 anos, já não me deixava -, cito autores, comento ideologias, sempre pensando em chamar as coisas pelo nome, sem cumprimentar a mediocridade e nem me esconder no anonimato.

Sorry, Anônimo.

2 comentários:

Anônimo disse...

Ao Sr. Anônimo,

Se Você está cansado de ver tanto gênio/intelectual se esforçar para fazer-se entender sobre seu texto ou crítica literária, aconselho que pegue um diário e parta para uma tribo bem distante onde nada, nem ninguém com o mínimo de inteligência possa lhe atrapalhar.

APSC

Relivaldo de Oliveira disse...

APSC,

Não me supreende mais a defesa da ignorância em nome do "paz e amor".

Se o Sr. Anônimo aceitar seu convite, sugiro que leve os peruanos que tocam na praça para animar a tribo. É genial, frenético e hiper híbrido.

abraço,
Relivaldo de Oliveira.