sexta-feira, julho 01, 2011

Futebol, Ufanismo, Jornalismo. Ou: O dia em que Messi jogou em Belém do Pará


Messi atuando por um time paraense


Qual a maior glória do futebol paraense em mais de cem anos de atuação de seus principais times? A chegada às oitavas de final da copa libertadores da América, alavancada por um campeonato que não existe mais, a copa dos campeões (o que não desmerece a ousadia, mas é exceção, nada além disso). Fora isso, os times paraenses nunca foram campeões da copa do Brasil, nunca ganharam um título nacional na série A, nem sequer chegaram a uma final desses torneios. Times com menos de duas décadas de formação já alcançaram melhores resultados.

Mas isso não é nenhum empecilho para as torcidas apaixonadas por Remo e Paysandu que continuam a acompanhar seus times com o mesmo fervor dos últimos anos e a se digladiar (não é metáfora) para ver quem é o melhor. Bom, aí é torcida, não haveria muito o que explicar.

O que me deixa intrigado é a importância dada pelo jornalismo paraense ao futebol. O tom de seriedade que encaram o esporte (alguns comentaristas parecem debater A crítica da razão pura, com seus paletós, seus semblantes graves, suas mãos espalmadas e juntas, sempre afetando seriedade e profundidade no que dizem), a cobertura aos times regionais, a quantidade de programas esportivos (contando, rapidamente, são quase 10!), o número de experts em futebol, poderia dar a entender que estamos falando de times que sempre figuraram e figuram entre os melhores times do país, quiçá do mundo.

É, do mundo. Quando escrevo essas linhas, a capa de um caderno de esportes de um jornal belenense estampa a foto de um ex-jogador de um clube paraense ao lado de uma foto do melhor jogador do mundo, o argentino Lionel Messi. A manchete é a seguinte: “São tão semelhantes!?” No subtítulo se lê: “O que há de comum entre Paysandu e a Argentina, além da semelhança na camisa? Os hermanos apostam em Messi, o verdadeiro (sic), para fazer sucesso na copa América, que começa hoje. E o Papão sonha que Thiago Potiguar, versão local do melhor jogador do mundo, faça o mesmo sucesso na Série C. Isso mesmo! Thiago Potiguar, o Messi da Curuzu, está de volta! A informação é do presidente do Paysandu, Luiz Omar Pinheiro.” (os negritos, ops!, as palavras enfatizadas são minhas).

Como se vê, o melhor jogador do mundo é comparado a um atleta que atuou no futebol paraense, sim, no futebol paraense, esse mesmo futebol que tantos títulos nacionais e internacionais deu ao torcedor e que, hoje, um dos seus times disputará a série c do campeonato brasileiro e o outro nem série tem para jogar. Esse jornalismo ufanista, como todo ufanismo, parece não se dar conta da situação dos clubes, da ausência de títulos, da falta de representatividade no cenário nacional. Hoje, o futebol paraense parece desaparecer do noticiário nacional, nem sequer o número de público chama mais a atenção das redações de fora do Estado.

É claro que isso se relaciona à necessidade de persuasão do jornalismo em busca de leitores, mas a persuasão quase sempre necessita de bons argumentos para garantir seu efeito. Não é o caso do futebol do Estado. Mas isso nada significa para o jornalismo esportivo da capital. Para ele, Messi pode ser comparado sem nenhum problema a um atleta de um clube regional, já que esse jornalismo acredita, de algum modo, que o esporte paraense detém condições suficientes para isso. Não tem problema, esse jornalismo resolve a situação, “a versão local do melhor jogador do mundo”, estará entre nós.

Não venham me dizer que essa comparação trata-se apenas de uma brincadeira, ou de um uso típico das redações do jornalismo esportivo. Isso faria sentido se o futebol nortista tivesse algum paralelo com o futebol onde joga “o verdadeiro” Messi. Trata-se, na verdade, de uma situação que se prolonga há anos na imprensa regional: o abandono completo de alguns dos pressupostos básicos do jornalismo, especialmente do esportivo, o que em parte pode explicar, de forma contraditória, a paixão pelo futebol. Masoquismo e sadismo, aí, como quase sempre, são inseparáveis.

Por que o jornalismo esportivo de Belém do Pará, além dessa cobertura dos gols da rodada, dos melhores momentos, das contratações, etc. não se dedica a realizar uma das características fundamentais do fazer jornalístico: a investigação, a apuração dos fatos que vão além da aparência, a busca de interpretações objetivas sobre a situação dos clubes? Diga, meu caro torcedor/leitor, quantas matérias ou reportagens Você já viu estampadas nas capas dos jornais, ou nas manchetes dos programas de esporte na TV, que tinham como tema investigar os motivos pelos quais o futebol paraense quase sempre teve uma boa média de público mas que, mesmo assim, seus times permanecem decadentes? Quantas linhas na imprensa paraense Você já leu a respeito dos contratos de patrocínio; dos meandros que cercam a venda de jogadores; das administrações de suas equipes; das decisões tomadas nas reuniões; das condições degradantes dos torcedores nos estádios, que vão além das miudezas, da superficialidade, dos “gols da rodada”?

O jornalismo paraense, prenhe de programas sobre o fantástico futebol do Estado, continua sem ter programas e páginas voltados para a ciência e tecnologia, justamente em uma região na qual esses dois aspectos são fundamentais. Não se trata de proibir esse ou aquele programa, mas isso diz muito da condição regional, e diz muito desse jornalismo. A idéia de que o jornalismo dá o que o público quer, também, aqui, é uma simplificação. Se assim fosse, por que o público não gostaria da explicação sobre os motivos de ser tratado como gado pelos clubes, por clubes decadentes, comandados por coronéis?

Essa forma de encarar o futebol paraense se assemelha muito à maneira de encarar a violência no Estado; através das notícias que não vão além do ocorrido, da imagem, do fait divers, sem uma contextualização que busque aquilo que deveria caber ao jornalismo: a organização da realidade pelos relatos jornalísticos, a aproximação da verdade.

Verdade?! Para determinado jornalismo isso cada vez mais vem sendo um conceito que se pode brincar, colocar imagens que impressionem, pensar que se trata apenas de uma troca de passes com a imaginação. “São tão semelhantes!?” Para esse jornalismo, parece que sim. Para ele, Messi já jogou em Belém do Pará.