quarta-feira, dezembro 30, 2015

“Chatô” uma breve alegoria para o Brasil


Não escrevo sobre filmes porque, salvo exceções, desprezo a atitude de enciclopedistas que sabem quando Audrey Hepburn andou sem calcinha, mas não sabem, ou não procuram, pensar por que ela é idolatrada pelas meninas, mas não pelas mulheres de verdade, que preferem Marilyn. Isso são visões de mundo, temáticas existenciais com as quais o cinema se relaciona. Há pessoas, pesquisadores (pouquíssimos), que entendem isso; a maioria fica na ausência do apetrecho de Audrey. Homens – não meninos – nem se fala, preferem Hepburn na sala de estar e Monroe no cômodo conseguinte. Já explico esse início.

Apesar de ter escrito artigos e livros sobre cinema, orientar trabalhos premiados e até dirigir um filme (“Fisionomia Belém”- com Yasmin Pires e um grupo de pesquisa - projetofisionomiabelem.blogspot.com -), nunca me interessei em comentar filmes, porque, confesso, o cinema sempre foi para mim aquilo – é contraditório, eu sei – sobre o qual me debrucei pra tentar entender e escrever nas “ margens” do mundo (Benjamin/Seligmann-Silva) e não para desfilar as curiosidades e tecnicismos que fazem alguns se exaltar em pizzarias.

Depois de oito anos, fui ao cinema (e, por favor, releiam os parágrafos anteriores antes de me perguntar “como pode?” – vi e vejo filmes de outras formas). Fui ver “Chatô, o rei do Brasil”, sim, o polêmico filme de Guilherme Fontes. Não vou falar do filme como artefato estético (técnico) apenas, mas do que ele representa em um país e um cinema que soçobra em mistificações, comédias vagabundas e experimentos sustentados pelos nacos do Estado com seríssimos problemas de valor – ai, ai, sim há exceções.

Ao sairmos do cinema ouvi um comentário de um senhor: “mas é muito avacalhado pra um tema tão sério” (foi mais ou menos isso que ele disse). Ora, só visões estúpidas esperam que filmes sejam história; há um longo debate sobre isso, não vou me alongar. “Chatô” é exatamente isso, uma alegoria em tom picaresco sobre um personagem extremamente relevante da história do Brasil (não li o livro; aqui não interessa), que, de outra forma, poderia incorrer nos enfadonhos filmes que se pretendiam ser representativos de momentos históricos brasileiros; a lista é longa e chata.


Era a única forma possível? Talvez não. Mas é uma forma que se separa exatamente daquela condição do cinema brasileiro descrita acima. No filme, está a história do personagem, seus principais momentos, e há a história do país, mas não há aí nenhum didatismo, nenhum teor moral unívoco, nenhum proselitismo ideológico. Duvido que “Chatô” seja mostrado nas maiorias das escolas para “ilustrar” (sic) a história brasileira.

Não dá, não serve, não se pode condenar o “rei do Brasil” para justificar a manipulação da mídia – embora isso seja verdade e esteja no filme, mas esse não é seu mote. Um amigo meu que me acompanhava comentou: “como se poderia mostrar a história de Chatô, se sua personalidade, em grande parte, abarcava consideravelmente suas idiossincrasias que estão no filme?”.

Li em algum lugar que o filme era exagerado. Mas é o exagero seu fundamento, que não cai na piada fácil, no bundalelê e nem na “memeficação” do humor (não precisamos elencar quantos filmes nacionais fazem isso). Entender o papel do exagero, de uma alegoria, de um expressionismo (hiperbólico, nesse caso, propositalmente) na história das representações culturais é compreender também sua força de subversão de temas e de estéticas. “Chatô” faz isso? Nem sempre. Lá estão as mais diversas influências estéticas picotadas (Cinema Novo, Atlândida, etc, etc), por vezes bem desenvolvidas e, em outras, realmente com ares de inovação (a idéia de mostrar um dos mais importantes nomes da história do Brasil em tom de chacota, sem ser pastelão, já é uma inovação). Quantos filmes brasileiros com tamanho investimento fazem isso (não abram comentários sobre filmes, não vou responder – falem sobre o que está escrito aqui)?

Problemas técnicos? Sim, deixo isso para os cinéfilos. Mas se esse filme possui alguma virtude – e não pouca virtude para os dias de hoje – é realmente destoar da “reprodutibilidade técnica” (um conceito problemático e mal compreendido de Benjamin) que se adotou no cinema nacional. Diretores de grandes produtoras reclamam da mesmice, mas não conseguem se desvencilhar; atores aderem constrangidos (alguns), mas o caixa os obriga a fazer o gordo sendo gordo, o boa pinta sendo patrão.

Paulo Francis dizia que toda vez que via um filme nacional dava vontade, pelo conteúdo repetitivo de ver o brasileiro sempre como um pobre coitado, de sair gritando “é um santo, é um santo!” Ao sair do filme de Fontes não podemos gritar isso. “Chatô” não é nem um santo, nem um degenerado, é um personagem complexo, histriônico, um empreendedor, um homem pulsional e sensível. Como representar essa personalidade? Tendo a história como pano de fundo que mais se destaca e explica a realidade por estanques momentos (início, meio e fim), imolando o “rei”, vendo como no Brasil tudo passa pelo poder, por explicações de poder, pelas “relações sociais” (há a participação decisiva de uma mulher – sim, “apenas” uma mulher - no poder que ele, “Chatô”, nunca doma e por isso sofre e também se arruina)?

Não. Se o filme de Fontes não é uma revolução do cinema nacional, também não é algo que possa ser tratado pelos pitorescos, pelos cinéfilos de achismos. Ele levanta possibilidades de como expor um tema relevante sem ser enfadonho e é, propositalmente, uma comédia feita da alegoria picaresca, que pode nos lançar imagens que ameaçam nossos “casulos” históricos, teóricos, cinematográficos, morais.


Chatô não é um Midas de facão na mão, nem um jagunço salvador. O julgamento onírico metafórico, picaresco e midiático que se realiza no filme tenta representar isso. O filme que começa com a posse da rainha Elizabeth, fazendo alusão ao rei tupi decrépito, termina com uma cena que mais parece uma metáfora das pulsões que, no filme, são também decisivas e, evidentemente, oníricas. Pulsões quase sempre estão no limiar do grotesco/exagero (recalque) e da “liberdade” (sublimação).

Talvez precisemos desses “exageros” esteticamente construídos que cindam a mesmice da imagem reproduzida no Brasil. Se alguém quiser ficar com a picardia por ela mesma, não entenderá a possibilidade de interpretar esse filme. É preciso ir além da vestes de Audrey; é preciso agarrar Marilyn em um canto, mas, fundamentalmente, é preciso saber o que isso significa para as “margens” – estéticas e éticas, não? - do mundo/Brasil.

Em uma das cenas, Chatô está moribundo na cama enquanto seus antigos amigos e empregados dele tripudiam. Imóvel, a câmera mimetiza seu olhar vendo aquela vingativa catarse; ele nada mais pode dizer, mas sabe quem foi, quem são aqueles senhores e do mundo do que fizera parte. Em outra cena onírica (do julgamento) ele se levanta da cadeira de rodas e pergunta, se ele for condenado: “quem vai continuar o show?”. Sim, o show continou e o Brasil ainda continua cheio de Midas, jagunços e reis. Vejamos as vestes de Audrey, mas agarremos Marilyn no cômodo seguinte.


quarta-feira, junho 03, 2015

Editora da UFPA publica tese vencedora do Prêmio Professor Benedito Nunes

 
 A Editora da Universidade Federal do Pará (ed.ufpa) lança, na próxima sexta-feira, 5, com sessão de autógrafos, às 18h, o livro Antropologia e Filosofia: Experiência e estética na literatura e no cinema da Amazônia, de Relivaldo Pinho. O evento será realizado no estande da ed.ufpa, na XIX Feira Pan-Amazônica do Livro.
A obra é resultado da tese de doutorado do autor, defendida no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFPA, sob a orientação do professor Ernani Chaves. A pesquisa foi vencedora da edição 2012 do Prêmio Professor Bendito Nunes da UFPA, coordenado pela Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação (Propesp) e atribuído à melhor tese de doutorado defendida no âmbito dos Institutos de Filosofia e Ciências Humanas, de Ciências da Arte e de Letras e Comunicação da UFPA. Podem concorrer ao prêmio trabalhos de pesquisadores (docentes e técnicos) da UFPA vinculados a esses institutos, ou teses de autoria de pesquisadores externos, mas defendidas em programas de pós-graduação desses mesmos institutos da Universidade Federal do Pará.
O trabalho de Relivaldo Pinho analisa os livros Belém do Grão Pará, de Dalcídio Jurandir; Altar em chamas, de João de Jesus Paes Loureiro; Os Éguas, de Edyr Augusto; e os filmes Um dia qualquer, de Líbero Luxardo; Ver-o-Peso, de Januário Guedes, Peter Roland e Sônia Freitas; eDias, de Fernando Segtowick.
Os livros e filmes têm em comum a cidade de Belém do Pará e representam épocas diferentes e importantes da capital. O livro de Dalcídio Jurandir tem o declínio da cidade com o fim da era da borracha; o de Edyr Augusto é um romance policial no fim século XX. Já o filme de Luxardo é da década de 1960, e o de Segtowick, que mostra a vida de três personagens em uma Belém já repleta de grandes edifícios, é do início do século XXI. São esses períodos e épocas que levam o autor a afirmar, em sua introdução, que “a literatura e o cinema aqui estudados são objetos estéticos que são pensados na sua relação com o sentimento, o espírito, que os emula”.
Real originalidade - “Perscrutar esse espírito em um conjunto de obras que o encerrasse, foi a tarefa mais longa, porque, imagino, contrapunha o espírito mais comum. O significado fundamental desta pesquisa foi o de buscar uma real originalidade na abordagem sobre a Amazônia, neste caso, mais especificamente, sobre Belém do Pará”, diz, nas notas iniciais do livro, Relivaldo Pinho. Para o autor, o estudo não poderia “ignorar a urbanidade - sua representação - que se ergueu e se ergue e a decadência que a acompanhou e a acompanha, naquilo que se imaginou/imagina ser o paraíso perdido, a Paris nos trópicos, ou se pensa ser exemplo de ‘moderno/contemporâneo’”.
Unindo Antropologia e Filosofia, a partir, principalmente, das teorias do antropólogo norte-americano Clifford Geertz e do filósofo alemão Walter Benjamin, o escritor buscou uma nova possibilidade de se observar a cidade por meio da experiência social nela presente e da estética que a representa. A pesquisa “se volta para as obras com a intenção de compreender seus significados e ler suas existências. Existências que podem se situar primordialmente na cidade, mas que estão atreladas à região”, afirma, no trabalho, o autor.
No prefácio do livro, o professor Ernani Chaves diz que “o que aguarda o leitor nas páginas que se seguem é, antes de mais nada, o resultado de um trabalho de pesquisa, em vários aspectos, extraordinário. O resultado de uma longa convivência do autor com o seu tema”. Para ele, Relivaldo Pinho “se situa na tradição daqueles que tomam a cidade como objeto, mas também como companheira e amante, tentando, de algum modo, desnudá-la. O estranhamento do familiar. O que corresponde, em Walter Benjamin, ao duplo movimento de imersão no objeto para que, depois, possamos tomar em relação a ele a ‘distância certa’”.
Sobre o autor - Relivaldo Pinho é graduado em Comunicação Social, mestre em Planejamento do Desenvolvimento e doutor em Ciências Sociais (Antropologia) pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Foi coordenador adjunto do curso de Comunicação Social e coordenador da Especialização em Jornalismo, Cidadania e Políticas Públicas, da Universidade da Amazônia (Unama). É professor do curso de Comunicação Social e do Mestrado em Comunicação, Linguagens e Cultura da Unama. Coordena o projeto de pesquisa Comunicação, Antropologia e Filosofia: Estética e Experiência na Comunicação Visual, Audiovisual e Literária Urbana da Contemporaneidade de Belém do Pará. É autor dos livros Mito e Modernidade na Trilogia Amazônica, de João de Jesus Paes Loureiro (Naea/UFPA, 2003), vencedor do Prêmio Naea de Melhor Tese/Dissertação de 2001-2002; Amazônia, Cidade e Cinema em Um Dia Qualquer eVer-o-Peso: Ensaio (IAP, 2012), contemplado com o Prêmio Vicente Salles de Melhor Ensaio do Instituto de Artes do Pará (IAP), e organizador do livro Cinema na Amazônia: Textos sobre Exibição, Produção e Filmes (CNPq, 2004).
Serviço
Lançamento e sessão de autógrafos do livro Antropologia e Filosofia: Experiência e Estética na Literatura e no Cinema da Amazônia, de Relivaldo Pinho.
Editora: ed.ufpa
Data: 5 de junho de 2015.
Horário: 18h
Local: Estande da UFPA, na Feira Pan-Amazônica do Livro
Entrada franca
Texto e arte: Divulgação ed.ufpa