quinta-feira, janeiro 21, 2016

Tarantino acabou

Reprodução

E acabou há muito tempo. O fanatismo de cinéfilos (sic) que se dane! “Os oito odiados” é o ocaso de um cinema repetitivo, sem o frescor de 1993 (“Cães de aluguel”) e 1994 (“Tempos de violência”) – já li isso em algum lugar, não lembro, e, como está certo, repito aqui. Tarantino anunciou parar de filmar em breve. Ninguém (o fanatismo que se dane 2) lembrará dele além desses dois filmes.

Vocês lerão dezenas de comentários sobre as técnicas, as influências, as retomadas temáticas, o aspecto teatral, etc etc etc. Como já disse, eu não faço isso. Na verdade, nem sei fazer esse desfile de pseudo conhecimento cinematográfico. Cinéfilo (exceções, sempre) não entende de cinema. Quem muito tem o que comentar é porque não sabe parar seu desfile de cabrocha “que vê muito filme” e esquece o cinema como “sintoma” do mundo do qual ele faz parte. 

Quando vi “Cães de aluguel” e “Tempos de violência” fiquei tomado por uma sensação de que algo realmente novo estava vicejando na cultura contemporânea. Mas, ao mesmo tempo, sabíamos que ali havia muito do cinema anterior e das várias “colagens” estéticas que a cinematografia proporciona. 

Evidentemente, não era apenas isso. Havia também um certo rompimento com uma ideia “negativa” do pastiche, da bricolagem, da ideia de autor. Não era apenas a “nostalgia de estilos mortos” que se repetiam[1], mas a possibilidade de, dentro dessas características estéticas, fazer surgir uma imagem cinematográfica que delas se aproveitando, lançava algo novo a ser percebido, uma estética, talvez, de acordo com um espírito contemporâneo que se apropria de estilos já existentes, mas que neles não se encerra. 

Garoto, aos 18 anos, recém adentrando os portões da faculdade, os dois filmes coincidiam com o auge, em algumas faculdades de comunicação, da ideia de pós-modernidade, da qual aquelas características acima fazem parte. Para essa ideia, Tarantino era um pós-moderno por excelência. 

E talvez fosse. Mas, talvez, para nós – e ainda hoje para mim – ele não se encaixava, naquele período, perfeitamente na condição de mero recitador de estilos e referências. Era bem possível pensar que, se ele estava naquela época de acordo com esse espírito contemporâneo, ele teria ido além da mera noção da referência ao passado como cópia. 

Mas é no que se tornou agora. Seu último filme não é apenas inconstante, é acima de tudo, a perfeita reprodução, como os anteriores já foram, de uma estética contemporânea que faz referência a outros e a si como fundamento de sua representação. Tarantino sucumbiu ao criacionismo de si mesmo e acabou se auto-implodindo ao som de Ennio Morricone. 

Uma das melhores críticas e comentários que vi sobre o diretor e sobre um de seus filmes foram feitos pelo saudoso Daniel Piza : “o curioso a respeito do novo filme de Quentin Tarantino, ‘Bastardos Inglórios’, é que até seus mais ardentes admiradores o levaram a sério de uma forma que ele próprio satiriza”. Piza estava criticando o tom sempre muito canônico com que fãs do cineasta tratavam seu cinema e demonstrava como a boutade de Tarantino era essencial para a compreensão de sua cinematografia. 

É isso. Tarantino deixou, depois dos dois primeiros filmes da década de 90, de ser um Sátiro que poderia, a partir de sua boutade imagética, nos surpreender além da repetição de uma imagem contemporânea que nos imprimia cópias sem graça de imagens anteriores. 

Curioso perceber como na exibição de seus filmes, especialmente desse último, os espectadores tendem a rir, gargalhar, mais do que se surpreender, mesmo em suas cenas propositalmente kitsch de violência. 

Em muito isso é uma provocação do diretor, mas isso também diz muito da condição do cinema e não apenas das famosas misturas de gêneros de Tarantino, mas, especialmente, como o espectador participa nesse mundo imagético de um conteúdo esperado, necessariamente identificador de um fazer técnico já assimilado (isso existe em “Tempos de violência” e “Cães de aluguel”, mas, percebam lá como isso tinha o gosto de uma novidade que extrapola a nostalgia das referências, daí talvez nosso riso mais contido nesses filmes, daí nosso “espanto” ao vê-los naquele momento. Datou, porque se tornou standard, e a indústria também, evidentemente, faz parte disso). 

O espectador sempre quis, pelo cinema, a evasão necessariamente egóica de um mundo que o ignora, de um caos que parece não lhe dizer respeito, de uma contingência inelutável. Tarantino nos dá tudo isso. E nós espectadores nos deleitamos com sua repetitiva implosão de si mesmo e com nossas repetitivas gargalhadas “terapêuticas”[2] e histriônicas. Isso é um certo tipo de fanatismo. Ah! O fanatismo que se dane. 


________________________________________ 
[1] JAMESON, Fredric. Pós-modernidade e sociedade de consumo, Novos Estudos CEBRAP, São Paulo, n. 12, p. 16-26, jun. 1985. 
[2] CHAVES, Ernani. Inconsciente ótico e função terapêutica do cinema. In: COUTO, Edvaldo Souza; MILANI, Carla Damião. (Orgs.). Walter Benjamin: formas de percepção estética na modernidade. Salvador: Quarteto, 2008. p. 127-139. 

sexta-feira, janeiro 15, 2016

Pssica, de Edyr Augusto

Reprodução

Janalice, Jana, diz: “Deus me abandonou. Só pode ser. Não acredito mais em nada”. Jana, uma das personagens de Pssica, novo livro de Edyr Augusto, é estuprada, raptada, vendida como escrava, vira prostitua, droga-se. O Portuga é um angolano que, em um assalto, tem a mulher esquartejada. Preá, um rato d´água, rouba embarcações com seus sádicos capangas. O prefeito, um patife, faz bacanal regado a drogas.

O cenário é a Amazônia, o interior e fronteiras do Pará. Se em uma famosa canção paraense “esse rio é minha rua”; no livro, o rio é um caminho perigoso, vaza sordidez. No Marajó, sai o búfalo, entra o povo-manada; no lugar do vaqueiro altivo, meninas famintas oferecendo sexo.

Em Caiena, “a paisagem era como em Breves. Ou subúrbios de Belém. Casas pobres. Ruas esburacadas. Umidade e chuva. Mas os carros que passam eram Renault Mégane, Citroën, Peugeot. Ainda vou ter um”. É um mundo pérfido em sua degeneração contínua. Um permanente infortúnio, uma Pssica, paira sobre ele. Uma praga que parece entoada por um destino inescapável.

Edyr Augusto sai de Belém, mas a barbárie da região não sai de suas linhas. Pssica é uma faca que entra no “bucho” de todos. Há outra região que os postais e as notícias não contemplam. Não há mais nada para ser contemplado. “Me Salva”, implora Jana, mas, como muitos nessa barca, ela nem sabe onde está. “O que fizera para merecer isso?”

Nada. Não há justificativas morais redentoras para explicar essa existência vil. Justificativas não servem para essa escrita expressionista e, propositalmente, mundana. Pulsões determinam ações, como as linhas indomáveis que descrevem essas vidas.


“Me salva”. Não. A redenção que se ensaia no livro é também uma encenação. Jana e sua súplica poderiam ser uma alegoria contemporânea da região. “E esta terra tão grande e linda, mas sem lei, sem nada”. Essa terra pode não ser a Amazônia imaginada, mas, nesse livro, já é um paraíso perdido.


Texto Publicado no Le Monde Diplomatique Brasil, em outubro de 2015.

quarta-feira, janeiro 13, 2016

Belém 400 anos e o “escapismo do presente”

Foto: Relivaldo Pinho. Sol ao fim do túnel. 2013. Projeto Fisionomia Belém

"As representações de uma cidade são sempre representações históricas, fantasmagóricas também, e são representações que são feitas de um determinado presente. Então, talvez o modo como a gente represente a cidade tem muito a ver com a maneira pela qual nós tentamos ou não entender o presente. É por isso que talvez nós precisemos desse mecanismo de escapismo do presente e acabamos reordenando a nossa relação com a cidade a partir de determinados marcos, que ou são marcos que remetem a um passado considerado maravilhoso, um passado de progresso, de pujança, de beleza como é o caso da Belle Époque numa determinada época. Não que essa recorrência a esses momentos do passado sejam necessariamente ruim, eu acho que o que é problemático é sempre o modo como essa recorrência e essa construção é feita. Ela é feita em geral para de algum modo descaracterizar a potência e o valor do presente. Então, o presente é uma droga, o momento em que nós vivemos não tem nada de interessante, é muito ruim. A cidade é feia, é suja e usamos esse tipo de imagem como uma espécie de imagem de modelo daquilo que a cidade foi e que deixou de ser, que nós olhamos com nostalgia, para qual a gente muitas vezes a gente usa essa expressão simpática, mas cujo sentido as pessoas em geral não entendem que é 'a saudade daquilo que eu nunca tive... saudade do que eu nunca vivi', que eu acho que é um sentimento que as pessoas idealizam quando escrevem ou quando dizem, mas que é um sentimento muito mais problemático, porque está atravessado por essas imagens de um passado idealizado". (Prof. Ernani Chaves no doc. Fisionomia Belém). Tentarei comentar a fala do professor.

Capa 1: ilustrada com um casal em uma dança regional; em outro quadro um casal enamorado olhando para o rio; no seguinte, uma bela moça  comendo um peixe com açaí (sem os lábios sujos, coisa típica nesse ato); e, no último quadro, uma famosa vendedora de ervas do Ver-o-Peso posando com seus apetrechos. Título: “Sons, cheiros e paladares da cidade morena da Amazônia”.

Capa 2: uma enorme arte compara dois momentos de uma das ruas do comércio de Belém. De um lado a época que denota história, um história, provavelmente, do início do século XX, época romanticamente relembrada; do outro lado da arte, a mesma rua repleta do comércio contemporâneo. A idéia era ver a transposição do tempo (sic). Título: “Belém 400: rica em história e cultura (sic), nossa capital merece ser amada. E que venham mais 400!”

Essas são as capas dos dois principais jornais de Belém. Para quem abriu as páginas seguintes viu que lá estão os monumentos, a chuva, as mangueiras, a Belle Époque, a história em fractais comentada por “especialistas”, e celebridades que dizem que “amam” a cidade e a carregam no coração. Tvs (algumas que vivem de exibir o “mundo cão” diariamente) não escapam da mesma abordagem, mídias digitais, publicidade idem.

Sei que esse tipo de abordagem não preocupa apenas a mim e nem é, assim, uma novidade temática. Para mim, abordá-la aqui não é tão prazeroso porque trabalhei com esse tema de modo acadêmico, mas nem sempre a academia é suficiente, nem o blog.

Mas, nesse momento pelo qual são mais do que perceptíveis as mudanças (contemporâneas, que tendem a ser mais “presentes”) pelas quais a cidade já vem passando há pelo menos quatro décadas, é impossível virar as costas para essa data e para o que fazem dela (sim, há exceções http://migre.me/sGlqS , e não é porque estou na matéria e o autor é meu amigo; foi a única li).

O “homem comum” dirá: “mas tem que falar disso mesmo, vamos falar de quê, só de desgraça? Isso já tem todo dia!”; o rapazinho, que sempre ouviu a professora dizer que a “mídia é enganosa”, que acha que entende de meios de comunicação, dirá: “o que esperar desses jornais e TVs capitalistas?”; o menino que ouviu falar de análise do discurso dirá que se trata de um modo superficial de falar da cidade, modo diretamente ligado ao signo que os mass media tendem a enunciar.

Quando vi essas abordagens de jornais TVs, etc. comentei com alguns dos meus amigos e alunos: “estamos lutando, provavelmente contra séculos de discursos sedimentados, consolidados”. Não é apenas porque é uma celebração que deve mostrar apenas o carimbó, também não é apenas porque a mídia é capitalista e nem porque sua linguagem a obriga a isso (e há alguma, não toda, razão em tudo isso).

Mas é também, fundamentalmente, porque esse discurso é um discurso criado muito além (para além (sic)) da mídia (e não estou a dizer aqui que ela apenas o ecoa). É um discurso que atravessou a história (e não falo apenas da Belle Époque) e que, não podendo ser debelado por uma lei, sobreviveu ao tempo (não há espaço para falar de tudo isso aqui). Mas não apenas isso. É um tipo de defesa de um eu coletivo que não consegue se deparar com seu princípio de realidade. Ora, se deparar com a realidade significa abdicar de um mundo onírico (não necessariamente prazeroso) no qual o julgamos, permanentemente, como ideação perfeita, um mundo que, na maioria dos casos, nos encobre o objeto ignorado, seja ele a dor, a perda, a decadência.
Somos miseráveis históricos (“um sentimento muito mais problemático, porque está atravessado por essas imagens de um passado idealizado”), presos a ideações de tempos, objetos e lugares que, a todo o momento, são por nós entoados, porque incapazes de encararmos que se há um adjetivo que pode melhor caracterizar os 400 anos dessa cidade é a noção de decadismo (decadismo também de nossa percepção). Negamos-nos a olhar as múltiplas cidades que surgiram e que nos saltam aos olhos; não percebemos porque o deleite dos tempos de júbilo (prazer) e a “dissociação da realidade” (Simmel, 1902) do cotidiano nos encobre, e continuamos a repetir, compulsivamente, as mesmas ideações (os “entendidos” já perceberam a forte conotação freudiana dessa abordagem – não gritem: é superficial!; porque gritarei que isto aqui não é uma tese acadêmica e, dito isto, como vocês sabem, de tudo posso me defender).

Mas aí, como o “homem comum” anterior, o leitor curioso deve estar se perguntando: “Jornais, Tvs e portais já não mostram essa outra Belém, violenta, suja e abandonada?”. A resposta é não. As representações feitas por esses meios se distanciam, completamente, do que estou dizendo. Não se trata apenas de mostrar essa outra Belém de corpos, pobreza e buracos; trata-se também de mostrar como essa cidade danosa/danificada não é assim apenas pelo “descaso dos governantes”, “da incompetência política”, ou da “falta de vontade política”, esses jargões entoados por esses sujeitos de ternos apertados e idéias frouxas.

É preciso compreendê-la no interior das centenas de movimentos históricos dos quais ela é legatária, da multiplicidade imagética que hoje se ergue como ecos de tempos que permanecem visíveis, insepultos e residuais e com outros se misturam, de entender que cada vez que tentamos “homenagear” uma cidade com seus mesmos símbolos cristalizados, esquecemos de perceber que ao lado da imponente igreja permanece, por décadas, séculos, um lugar de pobreza e decrepitude. Uma cidade contemporânea poderia assim ser vista pelos meios de comunicação? Tarefa difícil, como sabemos. Mas que tal começarmos a exercitar a tarefa de abrirmos fendas na história e, quem sabe, sabermos olhar através delas e poder representá-las.

Pensar que a pobreza da cidade se encontra apenas na periferia e esquecer que é lá, na periferia, que situam alguns condomínios de luxo e mansões (não estou opondo riqueza versus pobreza, por favor – falo de modos de apreensão), como sabemos, é de uma limitação perceptiva aterradora. Pensar que exaltamos a cidade ao demonstrar apenas seus ícones é ignorar que se precisa cada vez mais percebê-la nos matizes (econômicos, culturais, sociais) que hoje são incomensuráveis, o que é de uma falta de distanciamento que assola. 

Olhe pela janela de sua casa. Seu olhar pode cruzar com um prédio neoclássico e atrás dele um gigante de dezenas de andares; vire um pouco o rosto, levemente, e o casebre se cruzará com a casa de vidro repleta de arame farpado; se olhar para rua, talvez, o vendedor de frutas do fim da tarde e a caminhonete de luxo estejam disputando o mesmo espaço. “Os marcos” da cidade ainda existem, mas eles não mais residem sozinhos. Ignorar essa cidade, e não apenas seu cotidiano, é ignorar o presente como modo de aprender a retirá-la de seu manto que a encobre e, mimosamente, a eleva, esquecendo-se que é justamente com o presente e a partir de um presente que podemos dar um salto de "imagens dialéticas" (Benjamin) com a história. Belém, nos seus 400 anos, não pode adotar o “escapismo do presente”.